A senadora Zenaide Maia (Pros-RN), presidente da Comissão Mista de Combate à Violência Contra a Mulher, e a diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, participaram do 1º Colóquio de Violência de Gênero e Mídia ontem, quinta-feira (28). Parceria entre o Comitê Permanente de Promoção da Equidade de Gênero e Raça do Senado e o jornal Correio Braziliense, o evento fez parte da campanha de 16 dias pelo fim da violência contra a mulher, iniciada em 20 de novembro.

Na abertura, Ilana destacou os danos que a violência simbólica pode causar à vida das mulheres. De acordo com ela, muitas vezes esse tipo de violência passa despercebido porque as marcas deixadas não são visíveis, mas têm reflexos na educação, na cultura e na hereditariedade.

— A violência simbólica é aquela que quer invisibilizar a mulher. Que quer que a mulher não esteja nos locais de fala, de poder, nos eventos, não se faça presente, e que tenha condições, tanto quanto o homem, de falar, de poder ensinar e de poder transmitir — disse.

Para a senadora Zenaide, informação representa poder e, por isso, apenas a punição não é suficiente no combate à violência contra as mulheres. É preciso, afirma, investir em educação. Segundo a parlamentar, a violência está presente em todas as classes sociais, mas entre as mulheres negras e as sem poder econômico os números são ainda mais alarmantes.  

— Se para ter um teto, se alimentar ou estudar, você depende financeiramente de outra pessoa, você não é totalmente livre. Porque normalmente essa pessoa [responsável pelo sustento] vai te subjugar. A Lei Maria da Penha é considerada moderníssima, mas chama a atenção depois de 13 anos. Só punir não resolve. É preciso prevenir — afirmou.

A editora de Opinião do Correio Braziliense e consultora legislativa aposentada do Senado Dad Squarisi trouxe um histórico de como a submissão começou a ser imposta às mulheres. Segundo ela, os mitos das grandes religiões ajudaram a apresentar a mulher como portadora de maldades e, por isso, merecedora de punição.

— Não é de hoje que homem bate em mulher. Não é de hoje que homem mata mulher. Na Bíblia, a mulher era apedrejada até a morte. Na Idade Média, era jogada na fogueira. Assim é no mundo todo. A violência não tem a ver com riqueza, pobreza, desenvolvimento ou subdesenvolvimento. Ela ocorre nas sociedades mais avançadas do mundo.

Estereótipos

No primeiro painel, mediado pela consultora legislativa do Senado Roberta Viegas, o tratamento dado às reportagens publicadas pelo Correio sobre violência de gênero foi o assunto apresentado pela coordenadora de produção da editoria de Cidades do veículo, Adriana Bernardes.

— É função da imprensa dar visibilidade a esse tema. Procuramos orientar as mulheres e mostrar a quem recorrer. Além disso, é importante que os homens estejam com as mulheres nessa luta pelo fim da violência doméstica. Porque em algum momento, se a gente não frear isso, estarão como vítimas suas filhas, mães, tias, irmãs. Ninguém quer isso e ninguém suporta isso mais — afirmou Adriana.

O papel da fotografia foi abordado pela professora Sinara Bertholdo, pesquisadora de técnicas fotográficas como divulgação e metodologia de estudo. A especialista mostrou que o corpo feminino é retratado na fotografia publicitária como um estereótipo de consumo. Além disso, chamou a atenção para o fato de apenas 15% dos fotojornalistas do Brasil serem mulheres.

 — Eu sou uma fotógrafa formada por homens. Quando a fotografia é feita no lugar de fala do outro, esse olhar é construído. O corpo feminino está muito ligado ao consumo. E, muitas vezes, esse corpo é violentado porque não atinge essa expectativa projetada.

Assessora de comunicação da ONU Mulheres, Isabel Clavelin destacou o papel da mídia na discussão de gênero. A transformação, disse, passa pela ordem política e econômica, que tem a responsabilidade de reger a vida das pessoas.

— É importante falar de racismo e nomeá-lo como tal. No mundo, esses conceitos estão em constante disputa. Há quem diga que não tem racismo no Brasil, que é uma invenção. Por isso, os números são essenciais.

Feminicídio 

No segundo painel, sobre o feminicídio e o enfoque que é dado a ele, a consultora internacional em direito das mulheres Roberta Gregório falou sobre como o discurso da mídia pode incentivar a culpabilização da vítima ou mesmo a objetificação, seja ao glamorizar uma agressão ou hiperssexualizar o corpo da mulher.

— O desmembramento do corpo feminino é o primeiro passo para a violência contra as mulheres. Quantas propagandas têm só a perna ou só os seios? — questionou.

Representante do Instituto Patrícia Galvão, Luciana Gomes salientou o compromisso que tanto os veículos de comunicação quanto o governo devem ter com a temática.

— É preciso que não sejam projetos temporais. A ausência de dados e políticas públicas de enfrentamento também é uma pauta jornalística. É preciso, no entanto, fazer de um jeito que não desestimule as mulheres a denunciar, problematizando de uma forma que a vítima se sinta numa rede de proteção.

A especialista em políticas públicas e gestão governamental Cleide Lemos afirmou que o patriarcado silencia as mulheres, "não permite que a gente ouça e nem que diga nada”. Outra questão que deve ser enfrentada, de acordo com ela, é a disputa entre machismo e feminismo, já que o movimento feminista defende apenas a igualdade dos direitos.

— Não podemos fugir desses termos. Levantar a bandeira feminista é levantar a bandeira da igualdade. É preciso falar de gênero nas escolas e discutir os papéis sociais que são atribuídos a homens e mulheres na sociedade.

 

Fonte: Agência Senado

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