1. Dr Luiz, quais são os desafios para o controle da Covid 19 no Brasil?

Qualquer epidemia que mostre um alcance geral e que apresente transmissão entre pessoas é um grande problema para um país de dimensões continentais como o nosso. Existem regiões onde a realidade sanitária e a infraestrutura hospitalar são de primeiro mundo e outras em que as condições são extremamente precárias. É preciso que sejam consideradas tais questões quanto se planeja as atividades de prevenção e tratamento. Como é de conhecimento geral a responsabilidade pela assistência à saúde é dos municípios e depois dos estados ficando o governo federal como fiscalizador e financiador principal do sistema. A maioria dos prefeitos municipais  nunca priorizou a saúde publica em suas administrações e assim numa situação de epidemia a população fica desassistida. Querem culpar o governo federal, mas não é correto.

  1. Como você vê a participação da OMS na corrente epidemia?

A OMS vem agindo de forma atípica e confusa desde os primeiros dias da epidemia. Em princípio falhou em não obrigar a China a permitir a entrada de seus técnicos para avaliação in loco do quadro e quando ela permitiu já foi tarde demais e mesmo assim emitiu uma nota absurda dizendo que não havia provas de transmissão entre humanos da doença. Nenhuma das orientações da OMS foi realmente útil até o momento.

  1. A hidroxicloroquina tem papel no tratamento? Esclareça o que realmente ocorre com o medicamento.

O uso da hidroxicloroquina com a azitromicina no tratamento da COVID 19 foi preconizado por médicos franceses que apresentaram um trabalho demonstrando bons resultados com a associação das duas drogas. O fato dos presidentes Trump e do Bolsonaro terem apoiado a ideia foi um desastre pois os adversários dos mesmos fizeram fogo cerrado contra. Inicialmente indicaram a medicação apenas para pacientes graves, situação em que a medicação já não tem seu melhor resultado. Fizeram vários estudos com doses erradas induzindo complicações graves, o que ainda mais conspirou para o descrédito, entretanto ambas as drogas são extremamente seguras e quando adequadamente usadas parecem modificar muito o curso da doença e elas têm sido usadas precocemente, em diversos hospitais, com sucesso. Trata-se, entretanto de um tratamento que muitos não gostam: é demasiadamente barato. A maioria deseja uma droga cara, com patente, para garantir lucros recordes aos laboratórios.

  1. Como você vê a postura do presidente Bolsonaro na epidemia?

Não há dúvida que tem faltado assessoria ao presidente. Ele tem feito um esforço enorme para tentar fazer com que a rotina volte ao normal, o que em parte é correto, mas como no Brasil os problemas são diversos cada estado deve adotar a postura mais adequada conforme sua realidade, sempre com a assessoria do Ministério da Saúde. Em verdade o isolamento foi bem indicado para se dar tempo para a adequação dos hospitais nas diversas cidades. Não há como ser mantido indefinidamente até porque cada vez que for feita uma liberação teremos uma nova epidemia ou um novo surto, principalmente no Brasil, por suas dimensões. Para que haja a superação do problema é preciso que o maior número possível de pessoas adquira a infecção e desenvolva imunidade. A verdade é que até o momento não sabemos ao certo qual a real percentagem de pacientes que vai apresentar doença grave, mas parece que é menos de 1% dos infectados.

  1. Na sua opinião como poderia haver o retorno à normalidade?

Como manter a política do isolamento horizontal é inviável a médio prazo é importante que se planeje o retorno. O mais importante é que as pessoas entendam que a doença pode ser grave nelas, ainda que sejam jovens, e que o uso de máscara e uma maior cautela nos contatos é realmente fundamental. Se todos usarem o equipamento de proteção adequadamente a doença acaba. É muito importante que TODOS usem máscara, que os coletivos não andem lotados, que pessoas com febre ou sintomas gripais não saiam de casa.

  1. Você já vivenciou situação semelhante em sua vida como médico?

Não, nada que modificasse tanto a vida das pessoas. Assim que surgiu a epidemia de AIDS a situação foi muito séria. Na ocasião estava em Nova York fazendo uma pós graduação e pude ver o pavor que a epidemia gerou no âmbito hospitalar pela absoluta incerteza sobre as formas de transmissão. Era uma doença mortal embora de evolução lenta; as infecções oportunísticas surgiam apenas anos após a aquisição do vírus. A questão da epidemia atual é que sua disseminação foi muito mais fácil e rápida e como não tem um tratamento bem estabelecido e vem acometendo de forma grave uma parcela importante da população gerou um pânico geral. No Brasil temos diversas epidemias e surtos simultâneos tão sérios quanto a atual: dengue, zika e febre amarela só para citar algumas – que nunca tiveram a atenção adequada.