As redes de TV mostraram, nesse fim de semana de um Carnaval que, por bom senso, não aconteceu, as muitas ações das polícias e das autoridades sanitárias fechando festas clandestinas e outros eventos com grande aglomeração, notadamente de jovens, sem máscara, sem recursos para a mais elementar higienização, sem qualquer tipo de distanciamento – pelo contrário, com muito ajuntamento –, com o consumo de bebidas alcoólicas, drogas à solta em vários desses encontros, num momento de perigo flagrante de uma terceira onda de contaminação da Covid-19. 

Tudo isso diante da vigência de todas as proibições e restrições apregoadas pelos governos estaduais e municipais, com o amplo e fundado alerta das autoridades de saúde e a insistente divulgação, pela imprensa e pelas redes sociais, do crescimento de internações e mortes produzidas pela impiedosa pandemia.

Ainda assim, como se nada estivesse acontecendo, como se tudo fosse uma ficção, bandos de irresponsáveis trocam instantes pelo risco da própria contaminação e pela certeza de reproduzir em escala exponencial, em outras pessoas de seu convívio, uma tragédia que, sabemos, está longe de ser totalmente superada, com mortes que crescem a cada dia.  

A falta de oxigênio no Amazonas, a dificuldade absoluta na oferta de medicamentos, leitos clínicos e CTIs a doentes no resto do país, muitos  desses transportados  com emprego de onerosos aparatos de locomoção para serem socorridos em outras cidades ou Estados, já sem profissionais de saúde, todos cansados de empenhar a própria vida na tarefa heroica do cuidado de uma imensa população de infectados, são realidades que, conjugadas, não sensibilizam minimamente idiotas cegos e surdos ao mundo que há um ano nos ameaça com a morte.  

Essa tragédia precisa da responsabilidade de todos para ser afastada, dos ainda vivos, independentemente de raça, idade, posição social, grau de instrução.

Somos um universo com milhões de doentes, recebendo tratamentos caríssimos e custeados pelo poder público, e não há certezas científicas de que, a não ser pela vacina, haja solução para que dela possamos ser afastados.

A Covid vai, também com certeza científica, seguir matando. 

Se há essa certeza, se o poder público paga com os recursos do Tesouro pela manutenção da estrutura de saúde erguida na tentativa de recuperação dos infectados, se milhares de pessoas estão sendo contaminadas e outros milhares morrendo, por que não responsabilizar os que desrespeitam as necessidades de distanciamento social, do uso de máscaras e de todos os outros recursos de higienização que são hoje conhecidos como únicas possibilidades de contenção dos avanços da pandemia, com os rigores da lei? 

Atentar contra a saúde pública é crime. De quem quer que seja, inclusive do presidente da República. 

 

 

Artigo publicado pelo Jornal O Tempo, pág 2, em 16.fevereiro.2021