O Brasil comemora o início da vacinação pública contra o coronavírus. Esse passo, dado simbolicamente no último domingo em São Paulo, foi liderado pelo Instituto Butantan, no qual atuou firme e decididamente o apoio financeiro e político do governo daquele Estado. Também no domingo, minutos antes, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manifestava oficialmente a aprovação das vacinas cuja avaliação técnica estava sob sua responsabilidade, fazendo da solução chinesa, a Coronavac, e da Covishield, de Oxford, as primeiras alternativas postas no mercado para se tentar aplacar em todo o país a lamentável reascensão da contaminação, que vem sendo responsável pela morte de milhares de pessoas atingidas.

Também nesse último fim de semana, agravou-se a situação em várias regiões brasileiras, com destaque para o Amazonas – e Manaus, mais acentuadamente –, onde os hospitais públicos se viram acometidos de dificuldades as mais elementares, como a falta de oxigênio, um insumo básico e imprescindível, fazendo os governos federal e estadual trombarem na irresponsabilidade e na incompetência de cada um na gestão dos problemas da saúde.

O governo do Amazonas não explica o quadro caótico de sua saúde pública, como também não o faz o Ministério da Saúde, que quer se eximir de responsabilidade alegando ter mandado àquele Estado quase R$ 8 bilhões no ano de 2020 para fazer frente à pandemia. O quadro de sofrimento e mortes em Manaus é suficiente para qualificar ambos. Na verdade, só se percebe o Ministério da Saúde se justificando pelas verbas entregues a Estados e municípios que as gastam – muitos, sem os rigores da lei e da moralidade. Essa é a verdade no Brasil, fazendo jorrar denúncias de desvios, furtos e corrupção, mesmo quando se trata de verbas para salvar pessoas.

O Ministério da Saúde, sob o desastrado comando do general Pazuello, um servidor público que deveria se investir da sua histórica responsabilidade na solução de um dos mais graves quadros vividos pelo Brasil em todos os seus tempos, tem revelado sua inegável incapacidade, seu despreparo e seu desatino. No meio de uma pandemia, na qual famílias amargam a dor da morte ou a perspectiva dela, ele se ocupa de uma entrevista oficial para dizer, entre risinhos, que a vacinação iria começar “na hora H e no dia D”. Claro que usara desse artifício para esconder que realmente não sabia onde estava parado. Segue não sabendo. Num governo sério, deveria ser demitido com um chute público no glúteo, no mínimo, para sermos educados.

Porém, enquanto isso não acontece, nós, simples mortais, vamos caminhar com a esperança de que agora a vacina nos salve. Ou viraremos jacaré, como vomitam outros a quem também não toca o sofrimento de milhares que perderam pais, mães, filhos, irmãos e amigos.

 

 

Artigo Veiculado pelo Jornal O Tempo, Pág. 2, em 19.Janeiro.2021