Poucos brasileiros atravessaram o Muro de Berlim, na vigência da Guerra Fria, cuja queda completou 30 anos. Por duas vezes fi-lo. Alguns de nossos patrícios foram para lá a estudo, trabalho e identidade ideológica. A convite da Igreja Luterana, que levou 12 jornalistas a Alemanha Ocidental, em 1984, cumprimos extensa programação neste país. O mundo do lado de cá era o paraíso do consumo. Moderno em sua arquitetura, na cultura e na abundância de bens de consumo. O Partido Verde, a vanguarda no campo político, de viés ambientalista-conservacionista, acabara de eleger suas primeiras representações. Berlim ainda se apresenta como uma das cidades das mais instigantes do mundo. Do outro lado, reinava o silêncio e uma estranha sisudez cosmopolita. Os prédios acinzentados eram marcados de balas, a exemplo de uma varíola no concreto, desde o fim da Segunda Guerra. Uma estação de metrô conduzia a Berlim Oriental : Chekpoint Charlie. Você era obrigado a trocar 100 marcos ocidentais por 100 orientais na alfândega. Uma forma de fazer divisa, visto que a moeda comunista não tinha nenhum valor no mundo capitalista ocidental. Com o dinheiro comprei uma garrafa de bourbon Four Roses, que me distraiu e me ajudou a proteger do frio por alguns dias. Os alemães de cá, contudo, antes mesmo da mitológica travessia, reconheciam, por antecipação, que a despeito de a vida ser de uma sobriedade franciscana do outro lado, a qualidade da educação era melhor. Bem superior neste quesito,  garantiam. A música clássica e a literatura se sobressaiam. Discos e livros custavam uma ninharia. Os profissionais da imprensa, uma maioria de gaúchos, por causa da imigração alemã, no primeiro dia conheceram a cidade oriental, separada por muro que se estendia por mais de 20 quilômetros, com a recomendação expressa de que era obrigatório o retorno ao metrô às 22 horas, sob pena de sanções diplomáticas. Não se pernoitava por lá. Assistimos a ópera "Madame Butterfly", de Puccini. Um enredo de romanceadas contradições culturais entre uma gueixa com um oficial da marinha norte-americana. E corremos para a estação. Tudo cronometrado. A primeira impressão de Berlim Oriental era nostálgica. A cidade parara no tempo. Os destaques ficavam por conta da Alexanderplatz, o Portão de Brandemburgo e a Coluna da Vitória e a Antena de TV. A contrapor Mercedes-Benz e BMW os velhos e arrastados Ladas soviéticos. As lojas não exibiam uma única marca nos produtos. Tudo vinha em um invólucro branco, como se envelopado, inclusive nas farmácias e açougues, em vitrines sem o menor apelo de consumo. O estado, como sabido, mantinha o olhar atento sobre os cidadãos. Em todas as praças ou logradouros importantes se enxergava ao alto enormes câmeras de televisão em funcionamento giroscópico. Deduzia-se, óbvio, que o estado vigiava as pessoas. Um mês depois do giro tedesco estiquei até Estocolmo, paraíso da social-democracia, assim como toda Escandinávia. As mesmas câmeras vistas em Berlim Oriental se exibiam nos espaços públicos suecos. O olhar vigilante do Grande Irmão se estendia para além das fronteiras capitalistas. O sistema de saúde gratuita do lado comunista era irretocável. As jovens, a partir de sua primeira menstruação, podiam entrar em qualquer hospital e fazer o aborto. A política habitacional tinha muito do Minha Casa, Minha Vida, anos depois adotado no Brasil, traduzida em modestos apartamentos blocados em edificações de quatro andares, com estacionamento a céu aberto, geralmente na periferia. É o tipo da experiência que se relata, em particular, às novas gerações, embora essas estejam cada vez mais desatentas e desinteressadas dos idosos.