Para os existencialistas a dissonância SER X TER seria a marca definitiva do homem moderno em busca do autoencontro e da felicidade. Mal sabiam que o mundo das organizações logo suscitaria, nestes primeiros anos do Século XXI, uma variação em torno do mesmo tema, bem mais dominante, profunda e penetrante nos corações e mentes daqueles que se dedicam ao trabalho no universo das corporações.

 

O valor pessoal de alguém não deriva quase que exclusivamente das realizações constantes de seu curriculum vitae, mas de todas as dimensões de sua existência, que o tornam um indivíduo único e singular.

 

As pessoas são muito maiores do que os seus trabalhos. Mas as organizações se recusam a compreender e a aceitar tal evidência. Sacrificamos nossas famílias e as comunidades sociais por privilegiar desmesuradamente o trabalho. Isto é ótimo para a organização, mas péssimo para a pessoa.

 

Permitimos que códigos de ética e de moral sejam amiúde violados para satisfazer as exigências de uma organização inserida num mundo de competição desenfreada. Paulatinamente, assimilamos tais valores como se fossem nossos e passamos de forma inconsciente a compartilhar como indivíduos das mesmas atitudes e comportamentos.

Geralmente, quando se fala de ações empresariais imorais ou aéticas há a inspiração de que os fins justificam os meios. Atitudes não declaradas, mas praticadas, mostram que o importante são os resultados, pouco importando os princípios feridos para a sua consecução. O executivo que obtém grandes resultados nos balanços das organizações costuma dar muito pouco valor ou fidelidade à ética de convicção, o que o faz perder pouco a pouco a sua própria identidade como pessoa para assimilar a da empresa. Muitas vezes até por resistir à própria despersonalização, muitos passam a conviver no cotidiano com o dilema insuportável do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, em “O Médico e o Monstro”.

 

Ninguém deve buscar nas organizações apoio emocional de que necessita para ser feliz ou para assegurar o seu equilíbrio existencial. Nem mesmo a mais evidente característica da personalidade de uma pessoa é predeterminada. Todos têm direito ao livre arbítrio de escolher o seu destino.

 

Mas nem todos pensam e agem assim. Os grupos a que cada qual pertence tentam traçar e definir o destino de seus integrantes, constrangendo a todos a fazer o que lhes parece como grupo ser o mais conveniente e adequado aos interesses do coletivo. Há membros de algumas organizações que se tornam prisioneiros voluntários de uma realidade que preenche os seus vazios existenciais.

 

As pessoas mais propensas a se enredarem em tal situação profissional têm originalmente tantas carências como indivíduos que são naturalmente atraídos pela identificação com o grupo de trabalho e pelo preenchimento por parte da organização de suas necessidades mais sentidas. Tal identificação se efetiva por jogar no time, participar de atividades importantes, ser leal aos companheiros, ser reconhecido etc. De fato, muitas vezes tal contexto acolhedor nada mais é do que a resposta ao anseio de pertencer a algo que as ajude a suprir necessidades humanas insatisfeitas.

 

(*) Wagner Siqueira é consultor de organização. Foi Secretário de Administração da Prefeitura do Rio de Janeiro, Presidente do Riocentro e Secretário de Desenvolvimento Social da Prefeitura do Rio, além de exercer muitos outros cargos na Administração pública e privada. Site Wagnersiqueira.adm.br

 

 

Fonte: Drumond Agência