O conceito que disparou, em estridente infelicidade, o ministro Paulo Guedes, chamando funcionários públicos de “parasitas”, choca com a imagem construída por um dos membros do governo Bolsonaro mais aplicados – e até bem-sucedidos – na tarefa de fazer o Brasil reencontrar-se com o caminho do desenvolvimento econômico e social. Esse hábito de escoicear pessoas, em flagrante desrespeito humano e ao trabalho destas, vem perigosamente ganhando espaço e adeptos. Foi, nesse caso, uma atitude de desprezo, de desrespeito à função de grande parte de brasileiros, que vem se tornando comum, desde o presidente da República, que xinga a mãe dos interlocutores que não lhe agradam com suas perguntas; o que faz covardemente, porque humilha profissionais, pessoas simples em pleno trabalho, que certamente teriam receio em reagir no mesmo nível da ofensa.

Reconheçamos, tais autoridades se acham sempre protegidas por seguranças que não mediriam esforços para meter uma bala em quem, justamente, respondesse no mesmo padrão a deseducadas e estúpidas manifestações. Se fossem fatos isolados, paciência, mas essas posturas, preocupantemente, ganham força na relação com as pessoas em todos os segmentos da vida em sociedade. Se o presidente da República pode, o governador também, o prefeito idem, até chegarmos ao mais simples funcionário das repartições do Estado, todos esquecidos de que exercer a função pública com educação é um dever, e não uma opção, uma concessão, um favor. É obrigação.

Este talvez fosse o receio do então vice-presidente Pedro Aleixo diante da decretação do Ato Institucional 5, que respondera ao ministro Gama e Silva, um dos maiores sabujos de plantão naquele momento da ditadura militar, que ele (Pedro Aleixo) não desconfiava da integridade do presidente Costa e Silva em fazer uso criterioso daquele instrumento de força; o que ele temia era o mesmo poder de que certamente se investiria o guarda da esquina.

Ao se referir aos funcionários públicos, de forma horizontal, o ministro revela desconhecer a precariedade em que trabalham os servidores, por exemplo, das delegacias de polícia, dos grupos escolares, dos postos de saúde e hospitais públicos, sobretudo os que se encontram fora das regiões metropolitanas das capitais, muitos sem água nos banheiros e nas cozinhas, sem iluminação, geralmente imundos, e se não são piores é exatamente em decorrência da boa vontade dos que ali trabalham. Em vários Estados e milhares de municípios, talvez o ministro tenha se esquecido, salários e direitos não são pagos ou muitas vezes, quando o são, vêm parcelados em três, quatro vezes.

Os parasitas, os sanguessugas, os aproveitadores, os que ganham sem trabalhar, os que recebem privilégios realmente existem. São milhares e não podem ser a régua para medir todos os funcionários públicos. Para corrigir esses defeitos é que aqueles que trabalham, pagam impostos, sofrem no dia a dia, esperam uma agenda de reformas concreta e objetiva, a reforma do setor público brasileiro, justa na sua amplitude, que recompense a todos, uniformemente, na dimensão do seu trabalho e da entrega que cada um faz.

Há autoridades que, agindo, são disparadamente melhores do que falando, discursando, às vezes ofendendo. Nisso se inclui o ministro Guedes, de quem o Brasil espera que fale menos, mas aja contra os bancos, estes, sim, sem ressalvas, verdadeiros e bem-nutridos parasitas.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 11.fevereiro.2020