Não há nada que hoje ganhe importância no mundo se não estiver sendo discutido, em todos os ângulos possíveis, de trás pra frente e de frente pra trás, nas redes sociais. Tudo está lá, muitas vezes com opiniões as mais diversas, sendo debatido por pessoas também muitas vezes sem qualquer intimidade com o assunto em tela e até mesmo sem o mínimo preparo para tal.

Discutir está na moda; é direito de todos, é bacana. Mais ainda se for para descer o malho nas instituições, de uma forma corajosa, sem precisar estar presente, a chamada “coragem digital”, e nesse alvo estão, em primeiríssimo lugar, o STF, com seus ministros, a Câmara dos Deputados, o Senado, prefeitos, vereadores. Apanham também veículos de imprensa, em especial a Rede Globo, cujos repórteres de campo mais das vezes pagam o pato, ofendidos pelos que acham que têm esse equivocado direito.

Têm sido muito lembradas também as polícias militares e as guardas municipais, sempre que estas, cumprindo ordens, abordam cidadãos que se recusam a usar máscaras em espaços públicos, e estes sempre respondem que não há lei que obrigue o seu uso. Mas há lei que resguarda a todo cidadão o direito à saúde, um dever universal pelo qual responde o Estado, com gravíssimos ônus do Orçamento público, e por isso é justo e de bom direito que se espere respeito e cuidado à saúde de todos.

No último fim de semana, as redes sociais se ocuparam da convocação de grupos a seus adeptos para reverem seus contratos de telefonia celular com determinada operadora, se essa mantiver acordo com uma grande fornecedora de tecnologia digital chinesa. Direito de cada um, mas o que se realçou como risível foi a interpretação que cada um faz das relações comerciais do Brasil com a China e como se pudéssemos afetar tais acordos se nos organizássemos em grupos. Por razões óbvias, não há por que citar o nome da referida operadora ou da fornecedora, mas se está discutindo o sistema de suporte da opção 5G, o mais moderno e universalmente esperado avanço da comunicação digital no mundo.

O perigo que se vende nas redes é o de se tratar de uma relação com os comunistas chineses. Nós vamos acordar desta pandemia absolutamente quebrados: o Brasil, muitas das centenas de milhares de empresas brasileiras, porque nós, cidadãos, já estamos à míngua. No mesmo diapasão gritam contra o interesse da China pela nossa soja, pelo minério, pela carne, pelo leite, pelas frutas brasileiras, sempre com a alegação idiota de que os chineses querem tomar conta do Brasil.

Se pagarem bem, se gerarem empregos, se nos encherem de divisas, que venham comprar nossa produção os chineses, os japoneses, os turcos, os americanos, os alemães, os israelitas, o mundo, enfim. Que se interessem também por concessões de estradas de rodagem, que cruzem e entrelacem nosso território com estradas de ferro, porque não teremos em poucos meses um tostão furado para pagar a luz. Bem-vindos todos os que aqui quiserem investir na produção, na oferta de crédito barato, em tecnologia, na geração de empregos, porque só assim nos reencontraremos com a dignidade que o trabalho produz. Não há esperança na miséria, no desemprego e na fome.

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 04.agosto.2020