Já não inovamos mais quando dizemos que a CPI da Covid, em curso no Senado Federal, gasta precioso tempo e energia para não se transformar apenas num espetáculo circense, pouco orientada para, conhecendo a verdade, responsabilizar agentes públicos que não responderam às suas obrigações e que, assim, geraram a morte, a orfandade, a miséria e o medo em milhões de brasileiros. 

Vidas não voltarão, lógico, mas, se essa CPI não perder o juízo e o foco, não se intimidar e conseguir ser conduzida com isenção e coragem, o que é possível, seus resultados serão um instrumento para conhecermos publicamente o desleixo, a desídia, a leviandade de quem trata saúde pública na janela do interesse político-partidário, ou do negócio, de onde muitas vezes emergem as piores e mais nojentas práticas. Ou não trata de forma nenhuma, porque não sabe, ou não quer, ou não tem consciência de seu papel como gestor público. 

Será a oportunidade de não mantermos impunes aqueles que, com poder para não deixarem acentuar a tragédia que ainda muito se arrastará, lesando e matando seres humanos, aprendam que a vida de pessoas não pode ser condição de tão pouco, de um jogo tão pequeno, de sua criminosa arrogância, estupidez e negligência. 

Por que na mais alta Câmara do Legislativo brasileiro um instrumento poderoso como é uma Comissão Parlamentar de Inquérito, anunciada, debatida, proposta e devidamente aprovada sua instalação, fundada num tema tão sério, envolvendo até agora a morte de quase 440 mil brasileiros, tem que ser assim? Desde sua instalação, mais do que investigar ações que poderiam evitar tantas mortes e a correta aplicação de recursos por agentes públicos, o debate se orienta na maior parte do seu tempo para a vida pregressa do relator (o que não é objeto dessa CPI), para se o ex-ministro da Saúde X falará ou ficará calado quando lhe perguntarem por que fez ou deixou de fazer o que seria sua obrigação, tanto moral como de gestor público. 

Por que tanto se ocupar de habeas corpus preventivo, por que tanto medo das perguntas, por que tanto se quer evitar que se investigue com isenção, honestidade e imparcialidade o acontecido e se escancare para o Brasil inteiro a verdade dos fatos? 

Estamos cuidando da vida de seres humanos, de suas famílias, do Orçamento público, do futuro de um país pobre, que poderá ficar ainda muito pior se insistirmos nos nossos erros. Conhecer nossos erros no trato da coisa pública, identificar desvios de toda natureza, seja de dinheiro, de conduta, e reagir a eles, nos limites da lei, será sempre a melhor alternativa. A verdade nos fará crescer. 

 

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 18.maio.2021