Parece que um estranho fenômeno, bem servido de desorganização, de falta de planejamento e de irresponsabilidade com o dinheiro público, norteou as administrações da grande maioria de Estados e municípios do Brasil nos últimos tempos. Poucos desses entes conseguiram pagar suas folhas de salários e seus fornecedores e devolver minimamente aos cidadãos os serviços por esses esperados – alguns indelegáveis, como a segurança e o bom funcionamento dos Poderes Judiciário e Legislativo.

A administração pública virou sinônimo de ineficiência, de perdas constantes, de desperdício, de burla e de corrupção. Cadastros imensos são gerados e carissimamente mantidos pelos diversos serviços dos Estados, e esses nunca falam entre si; quando se precisa de uma estatística para facilitar decisões que envolvem a sociedade, quase sempre uma nova verba é requisitada para colocar nas telas e nas equações o que na maioria das vezes já se sabia.

Em Minas, infelizmente, não é diferente. As mudanças são ensaiadas nas mesas, nos gráficos formados e lidos nos gabinetes da burocracia; o dinheiro rola para pagar tais serviços, e, quase sempre, quando os resultados chegam a ser conhecidos, o problema já mudou de perfil. O Estado está velho, a cada dia mais lento, caro e ineficaz nas suas ações. Em todo o mundo – e no Brasil muito mais –, o Estado é um péssimo gestor.

Exemplo está no funcionamento das empresas estatais de prestação de serviços, em quase toda a federação, de formato e conforto monopolista – e o que fica são os maus resultados sustentados pelas altas taxas pagas pela sociedade. Nesses últimos dias, o centro do debate em Minas foi a corrupção descoberta em vários Detrans nos quatro cantos das Gerais, fraudando registros, identidades, sempre enriquecendo gangues – às vezes, presas; às vezes, não – processadas e julgadas, mas nunca extirpadas; há décadas agem, favorecendo o furto, o roubo, os desvios, através do jeitinho bem-remunerado e sempre no escuro. Quem perde? O Tesouro, que sustenta a máquina antiga, arcaica, mas não vê a arrecadação pelo que faz; e a sociedade, que, mesmo descobrindo ter sido vítima de um ardil, já não consegue mais reaver o que investiu. Triste realidade que a cada dia se avulta.

A experiência prova que as modernas tecnologias, quando bem empregadas, são a resposta infalível e econômica para se evitarem certos delitos. Nossos órgãos de segurança pública, ao que parece, insistem em não querer colocar o dedo nessa ferida; o modelo que Minas usa na vistoria para emplacamento, transferência e mudança de município de veículos, no confronto com todas as formas das quais se tem notícia que são praticadas pela marginalidade Brasil afora, é de um arcaísmo, de uma insegurança, de uma primariedade que funciona, sem muito esforço, como um convite à fraude. E o pior: às custas da fortuna gasta por um Estado que não tem recursos sequer para pagar em dia suas obrigações mais genuínas. Quem e por que insistem nesse atraso? Porque não se terceirizam essas e diversas outras rotinas em Minas Gerais?

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 21.janeiro.2020