Há quase uma semana a cidade do Rio de Janeiro e parte do país estão envolvidos num bate-boca idiota que tem movimentado como prioridade o primeiro escalão do nosso Judiciário – STJ, STF e PRG – para decidir se livros vendidos na tradicional Bienal do Livro, por conterem numa de suas páginas internas um beijo gay, poderiam permanecer na mostra.

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, cidade com uma população marcada pela insegurança, pela criminalidade, pelo tráfico de drogas, pelos equívocos de sua administração, achou tempo para alardear nacionalmente um tema circunscrito a uma feira de livros; tratou com frontal preconceito a opção de tantos, presentes numa sociedade múltipla, na qual se espera que héteros e gays convivam respeitosamente. Fiscais da prefeitura, empunhando uma ordem judicial de um juiz de plantão, foram aos estandes para recolher aquilo que reputavam ser uma ameaça mortal às crianças que circulavam pelo local, apenas acompanhadas de seus pais: os livros. Monstruoso perigo, como se desconhecêssemos que cabe a cada um o limite da expressão de sua identidade sexual, com a liberdade que faculta ao cidadão a própria Constituição. Desconhecem que é da própria vivência e informação que os jovens se preparem para construir suas opções, sua vida, com os ingredientes da própria felicidade. Ponto.

Faço esse comentário para renovar aqui o receio de que nós, mortais, na medida em que nos incorporamos como única preocupação tais idiotices,  estejamos desprezando a urgência que é reforçar o empenho e apoio de toda a sociedade brasileira pela aceleração de uma agenda de reformas, com ações concretas, e não apenas com discursos.

O BNDES identificou país afora mais de 300 projetos de privatização e tem, desse universo, adiantado estudo de quase 50 empresas em variados setores da economia, por meio dos quais poderia ser despertado o interesse de investidores nacionais e internacionais, com recursos de sobra prontos para serem injetados em tais perspectivas. Essas verbas vêm de fundos de investimentos e do próprio banco estatal, nesse caso, muitas vezes, um apoio traduzido em estudos de mercado, projetos de viabilidade ou até mesmo financiamento de capital de giro. Isso está pronto, carecendo apenas de um start do governo federal, e, em alguns casos, da parceria de Estados e municípios. Nenhum desses entes tem um tostão para investir em suas empresas, e eles desprezam um momento como este que estamos vivendo, próprio para fazermos a roda andar, buscando o apoio de capitais privados hoje empregados na mera especulação.

A prioridade agora é o desenvolvimento econômico e social, a geração de empregos e o bem-estar de toda a sociedade brasileira.

 

Fonte: Artigo publicado no jornal O Tempo, pág 2, em 10.09.2019