Vendo o noticiário nacional com que nos fulminam todos os dias as redes de TV, os jornais e agora os portais digitais, os sites, os youtubers, as redes sociais, têm-se a dimensão de que vivemos num Brasil sem problemas, que se pode dar ao luxo de se preocupar com o supérfluo, com as intrigas sempre miúdas que bandos escolhem para desenhar um país ideal, perfeito na dimensão de uns tantos que se descobriram donos das soluções nacionais. Um universo de pseudogestores, juristas, professores, cientistas políticos, também de justiceiros, quase sempre dispostos a resumir seu receituário ora no fechamento do Congresso Nacional, ora na substituição do STF por um tribunal militar, de preferência, como se assim fôssemos reencontrar o país dos sonhos.

Estamos entrando no décimo mês do governo Bolsonaro, mergulhados no maior caos econômico que não podemos mais suportar, e os assuntos que se apresentam como pautas nacionais nem de longe triscam nossos verdadeiros problemas. Desnecessário dizer que não foram problemas criados pelo atual governo (esclareço que votei em Bolsonaro), mas não enxergamos sequer o esboço de soluções que possam amainar o sofrimento de significativa parcela das famílias brasileiras.

Há uma semana o assunto nacional é o fracassado plano declarado pelo ex-procurador geral da República Rodrigo Janot de assassinar o ministro Gilmar Mendes nas dependências do STF. Correndo em paralelo, na boca do povo, está o grito de protesto contra essa mesma Corte superior para se evitar que esta possa anular as sentenças dos processos da Lava Jato que condenaram empreiteiros, agentes públicos, políticos, o ex-presidente Lula e tantos outros, julgados em Curitiba, muitos desses “vítimas”, segundo seus advogados, da imperfeição processual que desconheceu assegurar-se ao réu o direito de falar por último nas alegações finais que antecedem as sentenças que arrematam todo o processo. Alegam, muitos, que foram lesados no seu direito à ampla defesa, mas o tão criticado Supremo, ao que parece, já acena com perspectivas saneadoras desses eventuais acidentes processuais. Pelo que se depreende, nenhum condenado vai voltar pra rua, tampouco tais processos retornarão à estaca zero.

Em contrapartida a esse carnaval, a esse blá-blá-blá, o que não se resolve é o problema do custo do crédito, dos juros escorchantes e criminosos cobrados pelos bancos, ainda que a taxa Selic seja alardeada como a menor desde sua criação, em 1986, de 5,0% ao ano, enquanto cobram os bancos, no cheque especial e nos cartões de crédito, percentuais que podem chegar a 320% ao ano. Um crime. Não se resolve a quase irrisória oferta de empregos para amenizar o sofrimento de mais de 13 milhões de desempregados e outros tantos que já nem procuram mais colocação e vivem à margem da sociedade. Não se resolvem os problemas agravados pela equivocada execução fiscal que faz o governo federal, perdido na sua incapacidade de fazer reagir a economia para assim retirar o país da fome, da desassistência social, do abandono de um governo sem destino, sem metas e sem projetos.

Estamos, a sociedade brasileira, sendo envolvidos em discussões idiotas de fatos do dia, e o tempo passa. A quem interessa esse quadro de misérias? Onde está o grande projeto nacional com o qual se iria reerguer o Brasil?

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 01.Outubro.2019