O coronavírus é a grande calamidade que o mundo teme e, muito justificadamente, a única preocupação deste momento – senão a maior. Outra, desejamos, não nos surgirá, com a graça de Deus, para nos flagelar tanto.

Mas os problemas de antes não foram amenizados, e vamos piorar nossa realidade se virarmos as costas a outros Brasis tão fragilizados por décadas de inércia, de erros na definição de prioridades, de leniência e até de acovardamento. Somos produtos de um histórico de paciência, de tolerância e mesmo de descaso a todo tipo de incapacidade e desmandos da grande parte dos nossos gestores públicos. Em Minas, por exemplo, poucas são as cidades em condições de conter o medo e o sofrimento de suas populações diante do que estamos vivenciando agora, na saúde. Poucas podem oferecer à sua gente condições mínimas e decentes para tratamento dos atingidos pelo vírus.

Seja na saúde, como dito, seja no saneamento, como as últimas chuvas demonstraram, e em muitos outros agravos, o Brasil empurra pra frente uma realidade de miséria quase absoluta; só governantes despreparados não veem isso. Nos últimos 20 anos, a qualidade da educação brasileira, por exemplo, se deteriorou, apesar de considerável aumento de investimentos no setor.

Nesse período, o Brasil caiu da 37ª posição para 57ª em comparação com outras nações. Estamos atrás de países como Chile, Vietnã e México, além dos europeus, dos EUA, da China, da Coreia do Sul, da Austrália, do Canadá e de Singapura.

No Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos, em português), que é um indicador internacional da qualidade da educação oferecida à população nos países membros da OCDE (o Brasil, ainda que não membro, foi convidado para participar dessa avaliação pelo terceiro ano consecutivo), nosso país tem uma marca preocupante de sua baixa competitividade entre as já citadas nações, e estamos claramente ficando pra trás diante do mundo. Que atividade econômica de considerável valor agregado podemos esperar que aqui seja empreendida?

Estamos dando adeus às cadeias produtivas longas e inovadoras, adeus a modernos empreendedores e às boas remunerações. Adeus ao dinheiro fácil – isso, felizmente, porque, em outros tempos, este foi enfiado criminosamente nas grandes e, em muitos casos, improdutivas estatais, no bolso de empreiteiras amigas para financiar, com juros subsidiados, os “campeões nacionais”. Essa farra acabou e deixou como legado e exemplo os habitantes das cadeias de Curitiba.

Como o Brasil, Minas também sofreu particularmente mais nos últimos anos, e o Ideb (índice nacional que mede a qualidade da educação) caiu; saímos das primeiras posições para oitava, décima e, às vezes, até a 17ª posição, diante dos demais Estados da Federação. Lastimável!

Sem data para o fim da pandemia, voltar às aulas é imperativo. Provam as estatísticas em todo o mundo que o coronavírus ataca minimamente as populações de até 20 anos. Que tomemos esse como o nosso novo desafio: sem limite de cuidados e observados por todos, vamos incentivar a volta do funcionamento das escolas, as públicas e as privadas. Com o retorno às atividades do comércio, da indústria e dos serviços, com redobrados cuidados, vamos, assim, possibilitar a vida quase normal das famílias e da economia urbana. Sem riscos, sempre, mas devemos voltar para perder menos.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 21.Abril.2020