Na última semana, as TVs e as redes sociais se mobilizaram para divulgar a desastrosa entrevista à CNN da ex-atriz global Regina Duarte, titular da Secretaria de Cultura, órgão que passou a representar o ministério de mesmo nome, hoje incorporado à estrutura operacional do Ministério do Turismo. Os vídeos reproduzidos deram conta de que a citada secretária estava representando um mau papel numa cena de novela das 6, aquelas mais fraquinhas na hierarquia das TVs e de seus patrocinadores. O acontecido, pela bobagem do perguntado, associada à da entrevistada, poderia ter ficado pra depois – e mais adiante esse texto dirá por quê.

Na mesma semana, circulou por Brasília, recebido com honras militares em gabinetes de proa, o major Sebastião Curió, o qual o MPF acusou de ter praticado tortura e ocultação de cadáveres no período pós-64. Tivemos, ainda, a cena do piquenique acontecido no STF para que aquele tribunal desse uma solução ao entrave do governo federal versus Estados e municípios. Pretendiam o presidente e seus acompanhantes que o poder dos Estados federados e dos municípios não continuasse decidindo sobre a adoção da quarentena total ou parcial ou sua suspensão definitiva, possibilitando que a indústria, o comércio e os serviços, públicos e privados, de cada cidade voltassem a operar sem restrições.

Em todos os dias, brigaram por um espaço, no conjunto das prioridades nacionais, fatos os mais idiotas. A imprensa divulgou com estardalhaço o “cala a boca” ordenado a um repórter do “Estadão”, que na porta do palácio residencial do presidente lá cumpria sua função profissional: a de perguntar. Fechando a semana, uma brincadeira de mau gosto sobre um anunciado churrasco que felizmente não aconteceu e um passeio de moto aquática no lago Paranoá – porque, dizem, ninguém é de ferro. Com detalhes, toda imprensa se ocupou da divulgação desses factoides. Que um dia faça seu mea-culpa, mas que, antes disso, não siga dando importância ao que, neste momento, não a tem.

Para refletir, no dia 10 de abril último, tivemos 1.781 novos casos confirmados de Covid-19, totalizando 19.638 pacientes; em 10 de maio, 6.760 novos casos, com 11.123 mortes e um total de 162.699 casos confirmados. São números que aqui citamos apenas para enxergar a assustadora evolução dessa pandemia. Esses dados são acachapantes e medonhos, porque indicam que o vírus segue vencendo todas as medidas que autoridades de saúde, médicos, enfermeiros, do serviço público e privado, e voluntários, aos milhares, têm conseguido, com seu dedicado trabalho, empreender.

Desse grupo de destemidos profissionais, muitos morreram acometidos pelo mesmo vírus com o qual travam batalhas a cada minuto na tentativa de o debelar. Já não se sabe mais o que fazer, a quem ouvir ou onde estar para se evitarem a contaminação e suas trágicas consequências. Os relatórios trombam com informações que confundem a sociedade, com prognósticos que são os mais contundentes.

Já não se sabe mais se a volta às aulas das crianças, presas com pais e muitas vezes com seus avós nos mesmos espaços, seria uma forma de antecipar a extensão da pandemia a uma parcela da população, em muitas opiniões admitida como menos suscetível ao vírus; se basta tomar sol ou suco de limão puro, três vezes do dia para se prevenir; se vai ou não se receitar cloroquina.

O que está acontecendo é que a comunidade científica recomenda, no mínimo, ficar em isolamento, usar máscaras, higienizar as mãos com álcool em gel, água e sabão e esperar. Ainda que a economia sofra os horrores que todos podemos prever, uma ou outra providência pode ser tomada, nas mais diversas condutas. O que não dá é para ficar perdendo tempo com discussões cuja mediocridade em nada contribui para amenizar os problemas do país, que carece de uma luz, uma voz capaz de gerar confiança e fazer-nos acreditar no amanhã.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 12.maio.2020