A sucessão de manobras feitas pelo presidente da República para despedir o general Eduardo Pazuello do Ministério da Saúde, cujo comando ele vem ocupando mal e porcamente, chegou a ser irritante. Primeiro, pela evidência da falta de um nome que pudesse tomar pelas mãos as rédeas do segmento mais importante do governo na atualidade, a saúde pública, principalmente em decorrência das pressões feitas sobre a população, de forma incansável, pela pandemia do Covid-19. 

Tais pressões estão sendo a cada dia mais agravadas pela reluzente incompetência do errante ministro-general e de sua equipe. É impossível que o ministro, em humilhante aviso-prévio, tivesse empreendido apenas com a própria cabeça tanto desmando e tanta burrice. Todos lembramos da apreensão manifestada pelos seus colegas de farda, quando de sua promoção a ministro, no receio de que Pazuello viesse a manchar a reputação do Exército se não desse certa sua presença à frente da pasta. É o que nos faz depreender que já se esperava pelo retumbante fracasso, que acabou se confirmando na sua gestão, colocando mais uma vez em destaque o improviso irresponsável com que a saúde quase sempre foi tratada no Brasil. Mais uma vez, desconsidera-se o respeito à vida e à dignidade humanas. 

Há um ditado que diz que mais grave do que alguém assumir um cargo sem competência para o exercer é dar autonomia e responsabilidade a alguém que não esteja à altura de sê-lo. As restrições e as censuras públicas feitas com insistência pela comunidade médica e científica a Eduardo Pazuello, pelo seu flagrante despreparo, se foram ignoradas pelo presidente da República, a história certamente haverá de cobrar um dia. Não é possível que precisássemos chegar ao quadro de mortes, de desassistência e de falta de vacinas e à já constatada absoluta incapacidade para distribuí-las pelo território brasileiro afora, às reiteradas faltas de medicamentos, de oxigênio, de leitos, de CTIs, produtos da ausência de uma política nacional de saúde clara e corajosa para enfrentamento dessa tragédia que vemos realimentada a cada dia, para trocar um ministro que se revelou, desde os primeiros dias de sua passagem pelo cargo que ocupou, uma anta. Não há outro conceito: uma anta, arrogante, feroz e irresponsável, a quem a história certamente cobrará o desmazelo da trágica atuação.  

Claro que, em um ministério, com a força e a amplitude que tem na sua ação, a incompetência é muito mais grave e muito mais sentida; mas Estados e municípios, com exceções, claro, têm também suas responsabilidades na má e pouco exemplar condução neste momento de incertezas, de aflição, de desesperança e de dor. Que os nossos governantes tenham na mira o indelegável compromisso que esse grave momento tanto reclama. E sejam decentes, humanos, responsáveis. Quantos milhares mais precisam morrer? 

 

 

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág. 2, em 16.março.2021