Não é novidade para ninguém que os partidos políticos no Brasil sempre foram, ou pelo menos se tornaram, nos últimos 50 anos, meros acampamentos de interesses e interesseiros. Nada mais inautêntico, mais vazio e mentiroso do que tais ajuntamentos de quase tudo, organizados sob o manto da lei e dos generosos recursos públicos vindos do Tesouro e que os sustentam.

Nos nossos dias, mais acentuadamente ainda se observa a fraude do escamoteio, do faz de conta, da máscara que vestem para fazer passar pelo caixa do Orçamento público o patrocínio de sua farsa, uma gula inversamente proporcional ao quão representativos são. Representativos do quase nada de bom e aproveitável, dando tribuna para quadrilhas de idealistas sem qualquer ideal.

Noutro dia faleceu um desses líderes partidários, cujo nome esteve em 12 eleições, de vereador da própria cidade até a que elegeria o presidente da República, e nunca conseguiu ser exitoso em qualquer delas. Disputou tudo. Mas isso não é o pior: os filhos e a viúva agora se apossaram dos “direitos” da legenda, para levá-la aos píncaros da glória. Perigoso, indo junto e pela falta da experiência do líder e pai, caírem de lá.  

Nas eleições de 2018 um partido escudou-se na proposta do liberalismo econômico para embalar sua bandeira. O tom mais forte de suas cores estava na seleção de seus representantes para compor os quadros dos governos acaso eleitos e na veemente defesa da privatização de empresas públicas, sempre vistas como cabides de empregos e suporte das mais variadas falcatruas com o patrimônio da nação, dos Estados e municípios neste Brasil inteiro. Sempre usando como exemplo claro do sucesso dessa transferência de domínio do controle público para o privado, Vale do Rio Doce – agora só Vale, e não mais doce, haja vista a tragédia de Brumadinho – e mais outras tantas do mesmo perfil, o Novo seguiu falando muito e não fazendo nada. Seu representante no governo Bolsonaro de lá desembarcou porque nada conseguiu entregar.

Como em Minas quase tudo é diferente, aqui o seu projeto também o é. O governador Romeu Zema quer privatizar empresas em que o Estado de Minas Gerais exerce o seu controle. Obviamente, ninguém quer privatizar o metrô, o pronto-socorro, o Risoleta Neves. Estão armando o bote no setor elétrico, na Taesa especialmente, que querem colocar como a primeira da lista para ser abatida. Trata-se de uma empresa modelar, enxutíssima, que há anos coloca R$ 500 milhões no caixa da controladora Cemig, pagando dividendos e juros de capital investido; que tem Ebitda e margem de Ebtida, dois importantes indicadores financeiros relevantes nas análises internacionais de investimentos e participações, com resultados excelentes. Suas ações são investimentos recomendados por centenas de corretoras e consultores de investimentos de perfil internacional. Saudável, econômica e financeiramente, geradora de caixa e de excelente conceito como empresa. Uma joia, que nem parece ser pública.

Pelo perfil como se tocam empresas públicas no Brasil, qualquer idiota aconselha a privatização de TODAS elas. Mas, ao justo e honesto preço, com decência e transparência, sem o artifício de serem colocadas à venda com o criminoso uso de informações privilegiadas de seu potencial como empresa. Longe de estarmos falando que o fato de o atual presidente da Cemig, Reynaldo Passanezi, empresa controladora da Taesa, ter sido também presidente da ISA, pudesse comprometer a lisura da negociação. Longe. São meras coincidências.

O trabalho dignifica o homem. E o enriquece também. Alguns têm mais sorte.

 

 

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág. 2, em 11.maio.2021