A demissão do ministro Ernesto Araújo da pasta das Relações Exteriores, depois de longos embates com as forças de apoio ao presidente Bolsonaro, surpreende pela acentuada demora em ter ocorrido depois de sua comprovada incapacidade para muitas funções, nessas incluída, obviamente, a possibilidade de ser chanceler de um país com o perfil e apelos sociais do Brasil. 

Desde o início do atual governo, nomes como o de Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação, e o do próprio Ernesto Araújo sempre representaram preocupação e desconforto para o Palácio do Planalto. Como ninguém é totalmente ruim e imprestável, estes foram usados, ajudados pela falta de zelo de ambos com a própria biografia e pela esperteza de Bolsonaro, às vezes com a ingerência de Olavo de Carvalho, para levantar temas que gerassem o desvio da atenção do país pensante daquilo que são as adversidades criadas pela sua família, pelo seu próprio temperamento e pelo vazio constatado na ausência de projetos, tanto políticos e econômicos quanto sociais, desse atual governo. Entoar a fala de que precisamos livrar o Brasil do comunismo, da grande imprensa, da Globo, da mentalidade que impera nas universidades, na OAB, no STF, nos que defendem o meio ambiente, do vírus chinês e do atual presidente Joe Biden está ficando batido e surrado.  

Weintraub foi promovido para a diretoria do Banco Mundial, no qual já conseguiu mobilizar contra si as estruturas internas daquela instituição, claramente ofendida na sua reconhecida imagem desde a indicação do ex-ministro para ocupar uma diretoria sua. Weintraub, lá encostado para fugir a uma ação que lhe moveria o STF, vai ter muito em breve que conseguir outro canto para se esconder, porque está no forno um processo de investigação a que querem submetê-lo funcionários, seus subordinados. Achando que estava em Brasília, lá Weintraub encontrou quem o parasse. Uma vergonha. 

Já Ernesto Araújo, que foi peça fundamental na tortuosa negociação que conduziu junto com o ex Pazuello para a compra de vacinas, depois de uma ampla série de infelicidades em suas declarações nas relações com o mundo, em especial com a França, com a China e com os EUA, resolveu por último trombar com o centrão, que não joga pra brincar, e caiu de bunda, sem quem o amparasse. Esse governo tem que se repensar. Com o pedido de demissão do general Fernando Azevedo e Silva, do Ministério da Defesa, já se foram 13 dos indicados pela família Bolsonaro (até as 17h30 de ontem), e não pode o Brasil conviver com a insegurança de que ministros sejam empregados tão passageiros, e suas escolhas, o produto da vontade de seus filhos, muito hábeis para comprar casa no Lago, vender loja de chocolate e servir hambúrgueres. Com todo o respeito a tantos outros que se ocupam dessas funções cotidianamente. 

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo Jornal O Tempo, Pág. 2, em 29.Março.2021