Na semana passada, Minas foi palco de uma cena comovente da qual todo país se apoderou, acontecida na cidade de Patrocínio. Um jovem candidato a vereador foi brutalmente assassinado, após denunciar que o prefeito local, que busca sua reeleição, se ocupava de melhorar a pavimentação da via pública onde se instalaria o comitê de sua campanha eleitoral. O assassino, que antes tomara do candidato denunciante o seu celular, respondeu a tiros à legítima reação da vítima, que lhe exigiu a devolução do aparelho agressivamente lhe tirado das mãos anteriormente. 

Um bate-boca entre dois adultos, não incomum nesses momentos de eleições municipais. De impróprio o que se destaca é a intolerância extrema, a covardia, a estupidez servida por arma de fogo, cujo porte muitos insistem em ver liberado como instrumento de defesa pessoal. Nesse caso, semelhante a centenas de outros assassinatos do mesmo modo, a que no Brasil ainda lamentavelmente se assiste cotidianamente, o porte de arma de fogo, mais uma vez associado à ignorância, gerou uma tragédia sem volta.  

Impossível não dizer que estamos voltando à barbárie; esse crime é apenas mais um, e a violência em torno dele é nossa velha conhecida. Ela está no nosso meio, todos os dias. O que ele tem de anormal é o perfil dos envolvidos – agente e vítima –, sua motivação e o roteiro em que se desenvolveu. O fato ocorreu no período de pré-campanha política, numa pacata cidade do interior de Minas, momento em que se espera vingar a discussão de ideias, de programas, de políticas públicas, e uma denúncia provinciana, que deveria ser tratada de forma rotineira, motiva o assassinato de um jovem advogado e pai de família. O assassino era o então secretário de Obras, irmão do suposto ofendido, o prefeito da cidade. 

Exatamente ao mesmo tempo em que o país, vitimado pela pandemia, vai eleger vereadores e prefeitos de seus municípios, submetidos todos a um cenário gigantesco de dificuldades. Essas as mais profundas,  algumas intransponíveis, quase todas fundadas em um passivo que não se resolverá sem o diálogo, sem o juízo, sem o trabalho, através da competência e da lisura desses agentes públicos e da participação massiva das comunidades. Com esse amontoado de problemas, em pleno século XXI, ainda se mata por uma discussão política simplória, imbecil, menor, por causa de meia dúzia de metros de passeio. 

Morreu um pai de família, e seu assassino passará o resto de seus dias de vida na cadeia. Matou-se também o debate e quem a ele se opõe, porque se preferiu aniquilar o oponente. Que esse episódio de Patrocínio nos seja um alerta, para o nosso repúdio à violência, à pequenez, à mentira e ao ataque irresponsável às pessoas e à sua reputação. Sejamos intransigentes na cobrança e na valorização da prática ética. 

Sejamos mais.

 

 

 

Fonte: Artigo veiculado no jornal O Tempo, pág 2, em 29.setembro.2020