Promessas e sofrimentos. Por isso, uma multidão de atingidos pelas tragédias de Mariana e Brumadinho tomou conta da frente do fórum da avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, na semana passada. Milhares de pessoas bradavam palavras de ordem contra a Vale e a Samarco, cansadas de aguardar a mínima solução vinda de tais empresas para suas perdas, humanas e materiais. Ao mesmo tempo, a Fundação Renova, que parece ter sido criada para causar imbróglios e dificuldades na consecução da obrigatória reparação dos danos causados aos atingidos, é acusada até de práticas discriminatórias.

Mas o certo é que nem mesmo as casas para os atingidos de Mariana as mineradoras entregaram até a presente data. Um desrespeito desumano, porque a irresponsabilidade dessas empresas causou danos já incorporados à alma dos que sobreviveram à tragédia que ocorreu em Mariana. A promessa – e vivem delas – é que essas casas ficarão prontas em 2020. Quase uma concessão, com o respaldo do Judiciário, que pouco ou nada faz para pressionar soluções. O Ministério Público (MP), idem; parece contentar-se com o faz de conta que se vê, mostrado pelas mineradoras.

O governo Pimentel apossou-se do total da multa de R$ 120 milhões paga pela Samarco ao Estado de Minas Gerais e não devolveu a metade, R$ 60 milhões, como prometido à população em praça pública. É um valor que permitiria a Mariana a realização de obras que, se não resolvem as perdas da população em sua amplitude, pelo menos aliviariam um sofrimento hoje vivido e sem limites. Ninguém faz nada. Todos se curvam, humilhantemente, ao poder da Vale. Foram 19 mortos com o rompimento da barragem em Mariana e, até agora, outros 256 corpos ou restos de cadáveres encontrados sob a lama da barragem da mina de Córrego do Feijão, também da Vale, em Brumadinho. E ninguém preso. Se 275 vidas ceifadas não são capazes de fazer o governo ou o Judiciário se mexerem para uma sanção definitiva às empresas causadoras dessas tragédias, o que, então, será necessário?

 Até hoje não se sabem – e pelo jeito nem se vão saber – os danos realmente causados pelo mar de lama que matou rios, terras férteis, fauna e flora. Até hoje não se sabem as consequências para os sobreviventes e para as regiões atingidas. Nada. E dizem que existe uma força-tarefa formada por membros dos MPs estaduais, de Minas Gerais e do Espírito Santo, e do MP Federal, tratando do tema. A febre amarela voltou após o trágico rompimento em Mariana e o assoreamento de todo o leito do rio Doce. Após a tragédia de Brumadinho, a dengue proliferou assustadoramente.

Serão tristes coincidências? A quem cabe a responsabilidade de resolver ou mesmo minimizar tais agravos à saúde e à vida de uma população tão sofrida?

 

Fonte: Artigo Luiz Tito publicado pelo jornal O Tempo em 26.11.2019