João Gilberto achou a batida perfeita na bossa nova. Caravaggio achou a pintura perfeita no renascentismo. Pessoa achou na emoção das palavras a poesia perfeita. Luca Lenzi achou no azeite produzido em Minas o sorvete perfeito. A poucos foi dada a graça de provar o resultado da fabulosa alquimia. Ele saiu de linha... Por causa da estranheza diante do aparente sabor exótico? A gelateria Mi Garba, de evidente know how italiano, localizada em Lourdes, suspendeu a produção do sorvete à base de azeite extra virgem. O produto era arrebatador ao paladar. Um estímulo e provocação à novidade. O sorvete oferecia viagem ao paraíso palatal: de espessura fina em contato com a língua, puxava o sabor de sal em nuvem; o açúcar se acomodava como algodão no canto da boca e, por último, restavam o perfume residual e a levíssima ardência pulverizada do azeite. Um sorvete de sutilezas mil que, horas depois, sem derivações orgânicas, seria resgatado pela memória. Me arrisquei a dizer ao proprietário, casado com mineira, que foi a melhor delícia do gênero provada na vida. O ragazzo é um artista do gelato, com obra publicada e, generoso, receitas destinadas a curiosos e profissionais da área. Por lá, passei algumas vezes. A iguaria fora condenada: 31 de julho. Hoje, em casa, a preciosidade dorme na embalagem de 1.000 gramas. Sem culpa, saudosa, longe de olhares outros ainda mais se de partilha. Arrisco a pensar uma tese que justificasse o seu fim. O mineiro agregou em passado recente o azeite virgem à sua alimentação. Não tinha acesso ao produto de qualidade. As saladas, por exemplo, eram temperadas com óleo de amendoim, soja ou algodão, os mesmos usados na fritura, gotas de Andorinha, vinagre e sal. Sorvete, então, todos da Kibon ou algum artesanal de ares familiares, de preferência, dulcíssimos. Questão cultural, de época. Hoje é vasto o leque de excelentes sorvetes e azeites encontrados em supermercados e lojas do ramo. As novas gerações se dispõem a romper grilhões gastronômicos. Desde logo, reconhecem que a qualidade tem preço. Isso vigora em todo o mundo. E vale para tudo e todos. O ótimo custa caro, pois traz valor agregado. Se poucos consomem-no vai sair de mercado, o caso. Por fim, vale lembrar, de gosto regala a vida.