Pululam situações hilárias ao redor. Essa foi-me contada por amiga angelical. É o lado cômico da vida. A faceta desanuviadora dos tormentos diários da existência humana. Para enxergá-la resta esticar um olhar ao próximo. Às vezes apenas o ouvido. Pronto, encontra-se ali o que Dante Alighieri tratou por comédia, quando a viagem oscila no inferno. 
 
Dia desses, uma senhora, distinção respeitosa e educada, encontrou-se com uma sua conterrânea na esquina. Em Minas, isso se dá às carradas, visto que sua gente sai do interior, mas o interior não sai dela. As colônias se cultuam ao vivo e, claro, também por redes sociais. Paira insaciável ansiedade em saber das novidades na terrinha. 
 
Mariângela era vendedora de bugigangas, enfeites e adornos baratos. Num desses esbarrões fortuitos, deparou-se com a colega do interior, cuja mãe tinha falecido. Ela sabia do luto familiar. Fora ao velório e à missa de sétimo dia. Vítima dessas peças que a vida nos prega, verdadeiros embaralhamentos mentais a que todos estamos sujeitos, se esquecera, porém, do triste fato."E sua mãe?", indagou na tentativa de ser agradável. Nesse momento, o mundo desabou. Por um átimo lembrou-se da inconsolável perda, mas não se deu por vencida. E emendou: "Continua morta?". A mudez da interlocutora ressoa até hoje.
 
Foi dela ainda outra façanha, de natureza similar, em outra conversa ruim. Ou seja, a morte e sua liturgia, posto que era notória frequentadora de exéquias. Forma estranha de reconfortar a alma... se insinuar para pegar na alça do alaúde. Compreensivo ato de compaixão e solidariedade diante da inevitabilidade do fim. 
 
Mariângela foi a outro velório prestar condolências à família. A morta no caixão coberta de flores como manda o figurino. Ao seu lado choros contidos e abafados da parentada. Nada lhe veio à mente a não ser inusitada saudação, que saiu-lhe com força em espontaneidade. "Meus parabéns!", celebrou, para espanto geral. A má nota lhe tocou a consciência. "Parabéns pela mulher maravilhosa que foi sua mãe... Parabéns por você ter tido o privilégio de ser filha dela. Parabéns pela oportunidade de conviver com pessoa tão bacana". Pronto, missão cumprida. E, pelo visto, muito bem cumprida.