Pior momento não poderia haver para vivermos as dificuldades que ora nos acometem: crise política, crise social, crise na saúde, desemprego crescente, as relações internacionais ameaçadas, os mais otimistas preveem um quadro que comprometerá a vida em todo o mundo nas décadas seguintes. No Brasil, nada será diferente ou será até pior. Falta de poupança, crédito caro, indústria carente de atualização tecnológica, deficiência da educação, da saúde pública, corrupção e irresponsabilidade na máquina administrativa, reformas inconclusas, das quais se espera especialmente a já atrasada revisão da engenharia fiscal e tributária.

Ações diversas movimentadas pela Polícia Federal, pelo Judiciário e pelo Legislativo provocaram mudanças de atitudes em Brasília, onde se optou por “baixar a bola” enquanto não se esclarecem fatos que podem mudar as relações políticas no país. Está congelada a prática de se gerar o que politicamente se define como factoides, geralmente repercutidos por uma bem azeitada máquina de interessados, contra ou a favor, alguns desocupados, outros bem ocupados e, apura-se, bem pagos, mas isso não é o mais importante neste momento de mortes, de dor e de miséria que se avizinha.   

O maior problema que hoje vive o Brasil está nos desencontros de quem tem algum papel nas ações de enfrentamento da pandemia da Covid-19. Quase R$ 400 bilhões já estão comprometidos nessa guerra que já matou 60 mil pessoas, e não se consegue extrair uma decisão que concilie a preservação da saúde e da vida dos infectados com o funcionamento das coisas, do trabalho, a volta ainda que obrigatoriamente cuidadosa das atividades normais das pessoas e de suas famílias.

No Brasil há setores em que a pandemia imprimiu grandes revisões, algumas até muito bem-vindas; os negócios e muitos profissionais descobriram formas de oferta de seus produtos e seus serviços que permitirão ampliar a presença e o acesso de muitos a soluções até então impensáveis. Empresas descobriram formas de relacionamento com seus colaboradores e com seus mercados para as quais nunca haviam se voltado, com economia e eficiência. Mas há outro mundo onde as ações são presenciais, dependem do contato e da ação físicos, de alguma forma de operação feita com a presença, com o deslocamento, e, se os decretos não as veem como “essenciais”, estas o são para quem de sua prestação e rendimento depende para comer, pagar seu sustento e o de suas famílias. Há centenas dessas funções a que os decretos, frios, secos e muitas vezes produto de posturas arrogantes, impõem isolamento total, em nome de uma ciência que em nenhum espaço do mundo é definitiva.

Tão importante como a pesquisa e a descoberta da vacina tem que ser a busca de meios que possibilitem a quem depende do trabalho, trabalhar. E isso muitas vezes não se está determinadamente buscando. Médicos, infectologistas, cientistas que garantem que há cuidados que, tomados, podem reduzir o contágio não estão sendo ouvidos. E as consequências dessa surdez serão tão ou mais graves do que a própria Covid-19. Será a miséria, a fome, a falência de empresas, a redução dos empregos, a violência urbana ampliada, por décadas. São tantas contradições e desencontros que, ao que parece, ninguém tem certeza de coisa alguma. Por que não ouvirmos o debate e o aconselhamento de quem tem autoridade e preparo científico para orientar tais soluções? Quando está em jogo a vida e a dignidade humanas não há lugar para palpiteiros.

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo jornal O Tempo, pág, 2, em 30.junho.2020