Em meio a um cenário desalentador, de baixa ou nenhuma recuperação econômica, o governo Bolsonaro vai aprovar a reforma da Previdência, com a qual acena uma perspectiva de volta de investimentos no país. Espera-se, e Deus ajude que esteja certo, que capitais internos e externos encontrem atrativos suficientes para migrar da especulação para a produção e outras formas de investimentos que gerem aumento do PIB e, especialmente, de empregos regulares.

O governo tem se servido de alguns fatos pontuais para dizer que a reação já se evidencia, elencando eventos da indústria, da automobilística especialmente, como exemplo de avanço econômico, em meio a um clima do qual a própria base do governo desconfia; prova dessa desconfiança são as dificuldades que o ministro Paulo Guedes, o mago da hora, encontrou para fazer tramitar seu pacote na Comissão Especial de Reforma da Previdência.

Em paralelo, é sensível a corrosão do prestígio do presidente Bolsonaro se compararmos os índices das pesquisas hoje apuradas com aqueles medidos na sua eleição. Mas palmas para Bolsonaro, que, mesmo restabelecendo os velhos arranjos do processo de coalizão e o clássico toma lá dá cá com deputados e senadores, uma prática que tanto repudiou na campanha, vai aprovar a reforma que é o penacho florido de seu governo.

Essa reforma da Previdência foi vendida como um excelente mecanismo de ajuste fiscal; esperava-se, na tabuada do ministro Paulo Guedes, uma recuperação de R$ 1 trilhão, cortando gastos e privilégios. Tudo muito bom e lógico, se não tivermos um decréscimo na arrecadação dos tributos e contribuições que formam o bolo da Previdência. Cortando privilégios, o governo deverá, ainda, cobrar pra valer a dívida de centenas de poderosos sonegadores que há décadas enrolam, no Judiciário, autuações bilionárias. E, depois, trazer de volta, como contribuintes, empresas e trabalhadores hoje dedicados à informalidade e à ilegalidade, responsáveis por um rombo estimado pela FGV em R$ 1,173 trilhão, corroendo o PIB num índice que chega a 17% de sua estimativa. Estes são dados presentes em matéria assinada pela jornalista Tatiana Lagôa na edição do último domingo deste O TEMPO.

Vamos esperar, na boa conta do ministro Guedes, dez anos para levarmos para o Orçamento R$ 1 trilhão, e a informalidade e a ilegalidade, motivadas por um colossal desemprego e pelo medo da fome, têm em R$ 1,173 trilhão o preço da sua burla. E, pior, seguimos com 15 milhões de desempregados, milhares destes vivendo miseravelmente ou abrigados no crime organizado, no tráfico de drogas, no contrabando e em outras formas de delinquência.

Não podemos perder o embalo. A Previdência está pronta para ser votada e aprovada na Câmara, conforme prometeu o presidente da Casa, Rodrigo Maia. Resta-nos saber qual é o próximo lance para fazer a roda da economia girar, para vermos reduzir o desemprego.  A bola está com o ministro Paulo Guedes.

 

Artigo veiculado pelo jornal O Tempo, pág. 2, em 09.07.2019