Há duas semanas, escrevi aqui, neste espaço, criticando referência feita pelo governador Romeu Zema à Cemig, que representa o maior patrimônio dos mineiros entre as empresas controladas pelo Estado de Minas Gerais. Zema, em jantar do Dia da Indústria, realizado pela Fiemg, afirmou ser a Cemig um obstáculo ao desenvolvimento de Minas, pela sua inércia e seu imobilismo, sem mencionar, contudo, que essa empresa há décadas resiste a uma história de desvios, de desmandos e de equívocos na sua condução, especialmente porque teve usados, em centenas de oportunidades, seu patrimônio, seus projetos e suas opções como moeda de troca em conchavos políticos de discutível interesse para ela própria ou para Minas Gerais. Pior, foram práticas empreendidas para servir a interesses, várias vezes denunciadas. Aliás,  informadas às autoridades que têm a missão de defesa do patrimônio público e não devidamente apuradas, cabe a quem recebeu tais denúncias a explicação do porquê de não ter cumprido com a sua obrigação funcional.

Dezenas de reações me foram manifestadas, algumas de apoio ao texto e à própria Cemig, outras relativizando a importância de se manter a companhia, uma boa página da história de Minas, como controlada pelo Estado. Outras posições foram no sentido de que, se há problemas que comprometem a integridade da empresa e do seu patrimônio, que é um bem público, que sejam apuradas as responsabilidades de quem desse ativo não cuidou com zelo e seriedade.

Se quisermos manter saudável tal patrimônio, e se esse governo tem compromisso com a dignidade e a decência – como se esforça para afirmar que tem ­–, que se reavalie, por exemplo, como a Light foi adquirida e o que tal negociação representou ao ativo da Cemig. Que se auditem os contratos de construção de linhas de transmissão patrocinados pela Taesa, publicamente denunciados como eivados de vícios na sua formalização e, ainda, por flagrante descompasso entre as etapas de sua execução e o desembolso financeiro.

A quem isso beneficia? Por que manter posturas que engrossam o passivo trabalhista da companhia, hoje já estimado em mais de R$ 2 bilhões e sujeito a ser majorado por causa de manobras para ocupação de cargos? Quem decidiu os investimentos da Renova em parques de energia eólica e quais são os números dessa operação? Por que não se auditam os almoxarifados da Cemig, para se saber como algumas empresas prestadoras de serviços há anos fazem capital de giro usando materiais que pertencem à estatal contratante, empregando-os em obras privadas para assim se manterem ativas num mercado cuja competitividade é fraudada por tais práticas?

Governador: o senhor tem uma meia-razão; se a Cemig é um obstáculo ao desenvolvimento de Minas, seus problemas estão na falta de controles, na sua gestão, na burocracia seletiva para beneficiar amigos, no corporativismo. Faça com que a Cemig volte a ser um orgulho dos mineiros. E se um dia o caminho for privatizá-la, que seja posta à venda uma empresa saudável, rica, vitoriosa nos seus compromissos e fiel aos objetivos de sua criação.

Sem cortar na carne, governador, isso não acontecerá.

 

ARTIGO PUBLICADO PELO JORNAL O TEMPO, PAG.2, EM 11.JUNHO.2019