O mundo parou por causa da Covid-19, sem alternativas para qualquer atitude diferente do rigoroso respeito ao isolamento social. Não há que se pensar em contrariar as recomendações das autoridades de saúde quando a perspectiva mais próxima é a morte. E com a morte não se negocia; para quem perde, é só uma vez, e não há revanche.

Admitida tal realidade, num país com as diferenças sociais que tem o Brasil, com bolsões de miséria históricos, onde faltam água potável e comida e sobram esgotos e doenças, que só evolui para o pior, com taxas lastimáveis de baixo acesso da maior parte de sua população aos processos de mobilidade social, não deveríamos perder tempo com nada diferente da determinação de buscarmos soluções que nos tornassem menos injustos, menos individualistas e menos egoístas; essas são marcas próprias de caráteres deformados e inservíveis, especialmente para as funções públicas.

Não há nada que se possa antepor ao respeito humano e ao direito à vida, sem qualquer ressalva, de qualquer natureza.

O debate sobre medidas de expansão dos recursos de saúde para prevenção, para o tratamento e para assegurar a reinserção dos atingidos pela pandemia – que mais ou menos somos todos – na vida econômica e social do país não pode passar por opções individuais ou pelo jogo político menor montado para proteger interesses que, neste momento, não deveriam sequer ser considerados.

É inadmissível que neste quadro de escassez absoluta – especialmente de ideias e propostas, com quase mil pessoas morrendo diariamente, com empresas que já vinham fragilizadas nas suas atividades e agora estão ameaçadas de incontornável fechamento pela absoluta falta de amparo e crédito para se manterem de pé, com o desemprego se agravando e prestes a se transformar na mais incontrolável violência e no caos que já podemos prever –, com centenas de milhares de crianças privadas da única refeição à que têm acesso porque o fazem nas escolas hoje fechadas – ainda há quem tome tempo e recursos públicos para discutir a composição de bancadas na Câmara Federal e no Senado, se o Exército apoia ou não as manifestações populares contra ou a favor do presidente, se o STF vai abrir ou vai fechar ou qualquer outra coisa que não seja uma postura minimamente humanista com quem depende do Estado para viver – ou sobreviver –, ainda que miseravelmente.

Não é o momento para a conversa fiada, o ódio mesquinho e inconsequente estimulado para gerar o diversionismo e o vitupério a serviço da indignidade com que se manobram falsas crenças, falsas ideias, arrogâncias, bravatas e paixões baratas.