O trágico saldo do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, com quase 300 pessoas mortas e desaparecidas, não parece ter sido suficiente para sensibilizar a mineradora na extensão do sofrimento dos que perderam seus parentes e amigos; nem outras centenas que foram alcançadas na sua saúde física e mental, muitas definitivamente impossibilitadas para uma vida digna, independente e autônoma. Somemos aí aqueles que não conseguem mais se libertar do medo com que convivem e que os oprime. São reflexos que não vão se apagar com indenizações, com estradas e pontes que serão construídas, além de outras realizações embutidas no acordo selado com o governo de Minas, para apagar parte da irresponsabilidade gerada pelo desleixo e pela negligência de quem até hoje não foi levado aos tribunais para ouvir sua sentença. 

Com tudo que significou uma das maiores tragédias ambientais ocorridas no mundo, a Vale está agora em pleno 2021, dois anos passados do ocorrido em Brumadinho, sendo questionada pela não declaração da situação de outras 14 de suas barragens aos órgãos públicos de controle; algumas dessas barragens têm situação preocupante e poderiam, ao que dizem estudos técnicos, provocar danos da mesma magnitude do que resultou no rompimento da barragem da mina de Córrego do Feijão. 

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais determinou que a Vale informe, em até 90 dias, quais barragens não foram listadas nas suas informações aos órgãos de controle. Não se sabe por que conceder mais 90 dias para se conhecer o já conhecido, a menos que essa desinformação ainda possa ser enriquecida com mais desleixo e medo. 

Das barragens desconhecidas por qualquer órgão oficial, o MPMG já tem informação de estarem três em Nova Lima e uma em Ouro Preto, com anomalias já detectadas na sua estrutura de represamento; das outras dez, cinco estão em Catas Altas, duas em Itabira, duas em Brumadinho e mais uma em Sabará. Em todas as listadas, há casas, comércios e vidas humanas, prontas para sucumbirem à lama, como ocorrido em Mariana e Brumadinho. 

Causa estranheza que 14 barragens da Vale (nem se falou de outras mineradoras) sejam desconhecidas dos órgãos de fiscalização, eficientes para punir, multar e lacrar pequenos comércios e oficinas, mas que não percebem estar ali, a céu aberto, uma barragem de rejeitos de minério. Que perigo um fiscal ainda cair dentro de alguma delas e desaparecer. 

Há em Minas Gerais 38 barragens em situação de alerta. São estruturas que requerem um acompanhamento constante, para não surpreenderem com eventual rompimento, matando mais pessoas. Destas, 30 são de responsabilidade da Vale, sendo que três delas podem romper-se a qualquer momento. É normal, é justo, é decente que uma empresa, em troca do lucro, possa operar seus negócios colocando em risco vidas humanas? Quantos mais terão que morrer para obtermos essa resposta? Por que tanta tolerância?

 

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo jornal O Tempo, pág.2, em 25.05.2021