Quem tem poder de mando neste país – e aí estão incluídos prefeitos, governadores e o presidente da República, no limite definido pela lei de suas atribuições –, a não ser por incurável insanidade ou irresponsabilidade que a história certamente cobrará com juros, não pode deixar de tratar como de absolutíssima prioridade as ações que visam frear ou diminuir o avanço da pandemia que está, aceleradamente, dizimando o país.  

Na semana passada, morreram 15.788 pessoas, e loucos ainda discutem se é legal ou não que Estados e municípios decretem o fechamento das atividades consideradas não essenciais às pessoas, sendo esse, depois da vacina, o único caminho possível e à mão para diminuir o contágio, cujo evidente descontrole se reflete na total incapacidade do sistema nacional de saúde de responder às demandas que são crescentes. Chegamos ao limite. Não há leitos clínicos, não há CTIs, não há mais profissionais de saúde – nem médicos, nem enfermeiros, nem atendentes –, nem remédios, nem oxigênio, nem vacinas suficientes e em tempo, porque temos a saúde pública orientada por um asno, que não sabe nem onde está o nariz, imbecil e irresponsável, como é quem o mantém no cargo em que está e quem apoia essa estupidez em bloco que nos mata. 

O que sensibiliza essa gente? O que mais é preciso acontecer para que esse bando enxergue que seres humanos estão morrendo aos milhares? Escolheram um ministro tapado para comandar um ministério que é responsável pela vida de milhões de brasileiros, sob o rótulo de que a opção estava em um militar especializado em logística; como militar, o escolhido sofreu, quando de sua indicação, restrições da própria corporação a que pertence, pelo receio de que seu conhecido despreparo comprometesse a instituição. E de logística ele entende coisa alguma. Está evidente pela bagunça que viraram a aquisição e a distribuição de equipamentos hospitalares, de oxigênio, de medicamentos e, pior, de vacinas com cuja compra brincaram, alegando aos risinhos que o interesse de vender era dos seus fabricantes. Que morressem os que se infectassem, faltou que dissessem; a isso quase se chegou.  

Alega-se que as empresas vão quebrar, que o desemprego aumentará e que a economia nunca mais se recuperará. Há nisso muita verdade. Mas chegamos a um ponto que não nos reserva alternativa, e, nos números de hoje, mais de 60 mil pessoas vão morrer em 30 dias – é a população de uma cidade média brasileira que vai se contagiar e morrer. Empresas podem ser recuperadas, com programas bem-concebidos e financiamentos bem orientados pelo governo; empregos, da mesma forma, há como criá-los com políticas próprias, redução de tributos, incentivos os mais diversos. E a economia igualmente pode ser reanimada. 

Vidas não se recuperarão. Nem a nossa consciência, se seguirmos cúmplices desses desatinos. Lockdown, prevenção absoluta, vacinação em massa e permanente incentivo à pesquisa, já.

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo Jornal O Tempo, Pág. 2, em 22.Março.2021.