Os 40 anos da anistia política no país foram registrados ontem, em Belo Horizonte, com ato público em frente ao antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na Avenida Afonso Pena. O decano jornalista José Maria Rabelo, 91 anos, que passou parte de seu exílio na França, falou em nome dos presentes, ao som das músicas "O bêbado e o equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, e "Vai passar", de Chico Buarque. O ex-ministro Nilmário Miranda, o deputado federal Rogério Correia e o vereador Pedro Patrus também se manifestaram pela passagem da data. Os cabelos brancos e ralos dos vários rapazes e moças que, outrora, lutaram aos milhares contra a ditadura militar e pela democracia, prevaleceram na celebração. Parcela de uma juventude ideologizada se jogou em um audacioso projeto socialista de mudança de regime, muitos na clandestinidade, nas décadas de 60 e 70. Vários deles pagaram com a vida, o banimento e a tortura pelo enfrentamento ao autoritarismo. O assunto "anistia", pelo visto, segue mal resolvido. Um segmento à esquerda considera mutilada a legislação (6.683, de 28 de agosto, de 1979), classificando-a de "parcial". Por conseguinte, menos ainda ampla, geral e irrestrita, sob a argumentação de que a expressão "crimes conexos", em seu primeiro artigo, levou à interpretação equivocada de não punição a agentes do estado que praticaram crimes de lesa humanidade - sevícias, torturas, assassinatos e desaparecimentos. "A impunidade dos crimes contra a humanidade de ontem estimula, naturaliza, banaliza e torna impunes as torturas, execuções, chacinas e massacres do presente", conferiu o panfleto distribuído no local. O presidente Jair Messias Bolsonaro, como sabido, volta e meia traz o assunto à baila. Claro, dentro de um outro enfoque, qual seja, o de exaltação aos representantes do aparato repressor à época.