O glúten tem sido apontado como o vilão da vez. Basta rolar o feed das redes sociais para se deparar com influenciadores dando depoimentos sobre como suas vidas mudaram depois de iniciar uma dieta sem glúten. 

A substância tende a levar a culpa pelo ganho de peso e mal-estar intestinal de muita gente, além do risco de doenças cardiovasculares crônicas. 

Esse tipo de informação é, na maioria das vezes, incorreta. O glúten até pode fazer mal, mas apenas em algumas e raras situações. Nos demais casos, o elemento faz parte de uma alimentação equilibrada e saudável. 

Mesmo assim, a consultoria internacional Euromonitor projeta que o segmento de alimentos glúten free deve crescer entre 35% e 40% até 2022. 

O que é o glúten? 

O glúten é uma combinação de duas proteínas (gliadina e glutelina) encontrada naturalmente em muitos cereais, como trigo, centeio e cevada, que são base para a fabricação de macarrão, cervejas, bolos, biscoitos e pães.

 

A função do glúten nos alimentos é deixá-los mais elásticos e resistentes, em especial os carboidratos. Ao fazer o pão, o padeiro sova a massa, criando redes de glúten, que capturam o gás carbônico que as leveduras do fermento soltam. É assim que o pão cresce e fica macio. 

 

Para o organismo, os alimentos com glúten são ótimas fontes de fibra e energia. Porém, o elemento em si é de difícil digestão, o que pode causar uma inflamação no intestino, prejudicando o metabolismo intestinal em algumas pessoas. 

Quando adotar uma dieta glúten free

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1% da população mundial convive com a doença celíaca. Nessa doença crônica autoimune, o glúten não é bem aceito pelo intestino.

Quando o organismo detecta sua presença, passa a produzir células de defesa que atacam o intestino delgado, causando sintomas como diarreia, distensão abdominal, deficiência de vitaminas, osteoporose, dores de cabeça, falta de energia, infertilidade e, em casos graves, câncer. 

Como não há cura para a doença, o único tratamento disponível é a retirada do glúten da dieta, que deve ser acompanhada por um especialista para evitar deficiências nutricionais. 

Em alguns casos, a proteína pode causar sintomas intestinais, mesmo em quem não possui a doença celíaca. É o que chamamos de sensibilidade ao glúten não-celíaca (SGNC), que, segundo estudo da Universidade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, acomete de 0,5 a 6% da população. 

Na SGNC, os sintomas observados são diarreia intercalada com prisão de ventre, inchaço e dores abdominais. Quando o alimento com glúten é retirado da dieta ou ingerido de vez em quando, sempre com acompanhamento profissional, os sintomas deixam de existir ou são amenizados.

Algumas linhas na medicina acreditam que a sensibilidade ao glúten sequer existe, uma vez que os sintomas são inespecíficos e não é possível comprovar a relação com a proteína.

Além disso, pacientes diagnosticados com alergia ao trigo também podem se beneficiar de uma dieta livre de glúten. Até identificar se um dos componentes do glúten é a substância causadora da alergia, a restrição ao glúten pode ser uma das soluções recomendadas pelo médico. Se confirmado, a dieta glúten free deve ser adotada. 

Dados da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia afirmam que alergias alimentares, independente do alimento alergênico, atingem apenas 5% da população.

Mercado livre de glúten

De acordo com a Euromonitor, o consumo anual de pães sem glúten foi de pouco mais de US$ 1 dólar per capita no Brasil em 2018. Já bolos e massas tiveram o consumo de cerca de US$ 0,50 per capita no mesmo ano. 

Os pacientes celíacos, sensíveis ao glúten e uma parcela dos alérgicos ao trigo que quiserem consumir delícias como pães, bolos e massas precisam encontrar produtos alternativos à farinha de trigo usada na produção desses alimentos.

A substituição é feita com alimentos preparados à base de farelo de arroz, fécula de batata, farinha de mandioca e milho, que rendem pratos similares aos originais e que estão disponíveis em mercados, empórios, padarias e supermercados online

A identificação dos produtos sem glúten é facilitada pela Lei nº 10.674, que obriga que todo produto alimentício tenha na embalagem a indicação “contém glúten” ou “não contém glúten”.

Embora os itens glúten free tenham surgido para atender ao público que de fato apresenta problemas de saúde associados ao consumo da proteína, este segmento tem crescido graças aos demais consumidores que relacionam erroneamente o glúten a uma dieta mais saudável.

Segundo outra empresa de pesquisas de mercado,  a Mintel, 79% dos consumidores buscam alimentos mais naturais e saudáveis, e 30% dos brasileiros consideram a saudabilidade dos alimentos como um importante critério para a compra.

Dieta saudável de verdade

Ingerir um alimento livre de glúten não é sinônimo de comer de forma saudável. Tudo depende do ponto de vista. 

Para um celíaco, a dieta sem glúten é de fato a melhor opção para a saúde. Já para quem não tem nenhum tipo de mal-estar quando ingere alimentos com glúten, não é possível afirmar que a restrição é a melhor escolha para a saúde. 

Primeiramente, o alimento sem glúten não é necessariamente menos calórico. 

De forma geral, quem corta o glúten da dieta já está propenso a aderir a uma alimentação e estilo de vida mais saudável, com uma alimentação equilibrada e prática de exercícios físicos, atitudes que, em conjunto, auxiliam na perda de peso. 

A medida isolada de consumir alimentos glúten free dificilmente terá impactos na balança. Para esse fim, o ideal é investir em uma dieta menos calórica, reduzindo as quantidades de açúcar e gorduras e aumentando as quantidades de proteínas e vitaminas, com o auxílio de um profissional. 

Além disso, os pacientes que necessitam de uma dieta livre de glúten passam pela transição com acompanhamento próximo de médicos e especialistas a fim de evitar complicações.

Retirar o glúten da alimentação sem uma supervisão adequada pode acarretar em problemas de saúde que a pessoa antes não apresentava, uma vez que o elemento ajuda no controle de glicemia e triglicérides, promove o aumento da absorção de vitaminas e minerais, melhora a flora intestinal e fortalece o sistema imunológico. 

 

 

Fonte: Maria Gabriela Ortiz