O presidente Jair Bolsonaro e o governador Romeu Zema, para ficarmos apenas nos dois projetos, se elegeram tendo como especial destaque a promessa de estancarem o histórico sangramento das empresas estatais, criando uma engenharia especial de saneamento destas para posterior privatização das que pudessem trazer nesse movimento melhorias nas suas vocações, no redimensionamento de seus acervos técnicos e econômicos e, por fim, a desejada injeção, no caixa dos governos, de bons recursos que as privatizações delas promovessem.

Em paralelo, muito se ouviu que tal programa teria à frente quadros capazes de enfrentar as resistências construídas ao longo de décadas pelo corporativismo abrigado internamente em todas elas, dedicando especialmente à manutenção de privilégios que beiram a imoralidade.

Em contrapartida a essa rede ampla de favores pagos aos que em muitas delas confortavelmente estão, o que se vê é a ampliação da ineficiência, do clientelismo, do empreguismo, das contratações de escritórios amigos, em claro confronto e desalinhamento com os interesses atendidos por seus administradores e o desejado pelos donos dessas empresas, no caso, a sociedade brasileira, sobretudo a grande parte miserável que a compõe. 

Dois anos já se passaram desses dois mandatos, e zero se fez nessa linha. Objetivamente, zero. Dizer que os Legislativos federal e de Minas (estamos falando de Bolsonaro e Zema) impediram tais avanços seria mentira, porque não há propostas, não há estudos, e, no plano federal, quem lá esteve com essa missão, gerando pela sua nomeação até certa esperança, saiu dizendo que as resistências corporativas são muito grandes e não deixam fluir tais programas; que surpresa!

Nos dois espaços políticos há apenas murmúrios, “tique-tiques nervosos”, intenções, mas o que vige, o que impera e o que, afinal, manda é o medo de ofender interesses, confrontar líderes de ocasião e especialmente de se tirar o ganha-pão de grupos.

Em todas essas estatais a caneta está nas mãos de partidos políticos, dos amigos da casa, no caso, da casa de quem manda. 

Quando se fez a privatização da Vale do Rio Doce, a reação gritada em todos os cantos do país foi a de que se estava entregando o patrimônio público da maior mineradora do mundo aos interesses internacionais.

O modus operandi escolhido para a venda daquele império foi o leilão público das suas ações; R$ 3,3 bilhões foram apurados, tendo o Bradesco liderado a compra e mantido sob o seu controle 32% da companhia então privatizada, concorrendo com investidores estrangeiros que adquiriram outros 26,7% do total da participação da União.

Pouco? Foi o apurado em leilão, mas para lá foram os que enxergavam a Vale como empresa, fazendo-a deixar rapidamente de ser Doce.

Se a nova Vale prefere exportar o minério brasileiro a investir em indústrias de transformação dentro do Brasil (o que já não fazia antes) é outra história. 

As nossas estatais permanecem as mesmas, sobretudo as mineiras, a caminho da anemia profunda, sangrando, de equívocos em equívocos, sem a dimensão da realidade em que vivem. 

 

 

 

Artigo publicado pelo Jornal O Tempo, Pág.2, em 02.Janeiro.2021