Artigo veiculado neste mesmo espaço, há duas semanas, denunciou com fatos a situação de depreciação patrimonial pela qual passa a Cemig e que decorre de problemas já há algum tempo mal tratados pela estatal e por seus gestores. As reações foram as mais diversas, mas significativamente de apoio ao texto publicado.

A Cemig, companhia que já foi orgulho dos mineiros, pela sua trajetória empresarial e sua importância política e social, infelizmente definha. Já não é a mesma empresa na sua capacidade instalada, que sofreu um déficit de 9,6% entre 2010 e 2018, pela perda, em setembro de 2017, das usinas de São Simão, Jaguara, Miranda e Volta Grande, que, juntas, representavam 2,9 GW de geração. A aquisição da participação de sua sócia Andrade Gutierrez em Belo Monte e Santo Antônio aliviou, mas pouco, o baque. Olhando para a frente, projeta-se um caos mais profundo, com o risco de que a Cemig possa ficar ainda menor em 2026, pelo vencimento das concessões de Igarapé, Sá Carvalho, Emborcação e Nova Ponte, decotando de sua capacidade instalada mais 34%, se a empresa não tiver disponibilidade de caixa para investir R$ 7 bilhões no processo de renovação de tais direitos. Corre a empresa – um significativo patrimônio de Minas – o risco de ver seu potencial reduzido a apenas 50% do que fora em 2016. Triste, não?

Este é apenas o quadro da geração de uma empresa que já perdeu quatro usinas e, em junho próximo, terá que se apresentar em condições de mostrar sua eficiência para investir e manter as outras quatro usinas ameaçadas de transferência para algum grupo investidor mais capitalizado. Sabe-se que a atual Cemig não dispõe de caixa para fazer frente a outros interessados numa disputa por esses ativos de geração.

Até aqui estão abordadas as questões da geração, que são graves e com data marcada para serem resolvidas. Investimentos grandes, sérias pressões de caixa e curto prazo para serem enfrentados. Para piorar, estão postas também na mesa as demandas da distribuição, estas, sim, responsáveis por atrasos nos serviços da empresa como fornecedora monopolista e que têm se refletido muito mal na sua relação com o mercado e com seus consumidores. Há casos em Minas de instalações comerciais e industriais na fila há mais de um ano para serem ligadas ou ampliadas. Outras, discutindo projetos e aguardando soluções que nunca vêm e que, sabe-se, não virão, porque aí o investimento necessário nos próximos quatro anos para tornar a Cemig eficiente é de R$ 10 bilhões além do que a estatal teria em caixa para investir nesse segmento. Ou seja: poderá ter R$ 11 bilhões, e o orçamento para a distribuição vai requerer R$ 21 bilhões.

Trata-se de uma situação lamentável, especialmente num momento em que o setor está discutindo o atraente viés da geração distribuída, e para tal não há projetos, não há dinheiro e, sobretudo, já não há a mesma confiança de um mercado cansado de pagar pela espera de soluções que nunca vêm. Ou, se vêm, têm como via obrigatória interesses desagradáveis de serem enfrentados.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 07.janeiro.2020