Um vídeo amplamente divulgado nas redes sociais mostrou com detalhes, há alguns dias, uma cena que está se tornando comum: a de agressão aos profissionais de imprensa, no exercício de seu trabalho, em decorrência (ou às vezes nem é o caso) das posições sustentadas em suas opiniões ou mesmo pela simples cobertura dos eventos da atualidade política, econômica e social do país. Tornou-se rotineiro que jornalistas, em razão da profissão ou de trabalharem para determinado órgão de imprensa, sejam publicamente agredidos, o que chega muitas vezes ao constrangimento de seus filhos e outros membros próximos de suas famílias. Isso demonstra, no mínimo, que estamos assistindo à perda de qualidade nas nossas relações, chegando ao desrespeito de quem trabalha e do que pensa.

Na semana passada, felizmente, um empresário foi indiciado em inquérito da Polícia Civil de Barbacena em razão de flagrante gravado por câmeras de rua, de estúpida agressão feita ao repórter Robson Panzera, da TV Integração, afiliada da Rede Globo, daquela cidade. A cena é chocante, especialmente pelo seu grau de asneira e pela proporção que ganhou, em segundos: o agressor desce de seu carro, dirige-se aos gritos ao repórter e friamente o agride aos socos e pontapés. Depois toma-lhe a câmera de gravação e a destrói, batendo-a no chão, mesmo sob protesto de pessoas que assistiam à cena e que prestaram os primeiros socorros ao profissional agredido. Cenas iguais vêm sendo observadas em todo o país, especialmente nos grandes centros, agravadas pelo estresse e pelo desespero que tomou conta das pessoas, independentemente das suas condições econômicas e sociais. Está se tornando corriqueiro, como assistimos com frequência, ocupantes de cargos públicos de importância dirigirem-se aos seus desafetos mandando-os à ---- que os pariu, ou tomarem no --, ou enfiarem no -- diplomas, currículos, compromissos com a honra, e tudo mais que em tais espaços, como entende cada um, caiba.

Estamos perdendo o limite da educação, da civilidade, do respeito ao que pensam os contrários, e a evolução dessa torpeza vem se multiplicando, constatada em todo o mundo. A violência que nos traumatizou de forma inesquecível e nojenta em cena de preconceito racial praticada por um policial americano contra o negro George Floyd e que alvoroçou todo o mundo para em selvageria também cobrar respostas das autoridades; a tragédia que vitimou de morte a criança pernambucana Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, filho da empregada doméstica que o deixara aos cuidados da patroa para levar o cachorro da casa à rua – são fatos gravíssimos que exemplificam que mundo teremos, bem proximamente, se não acordarmos para a necessidade de outras práticas e posturas, que passam pelo respeito, pela solidariedade, pela tolerância, para que a violência não se transforme em permanente e irremediável pandemia.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo em 09.junho.2020