Em encontro realizado em BH, ontem, patrocinado pelo Instituto de Formação de Líderes, falou na primeira palestra o ex-governador Paulo Hartung, que trouxe como mensagem a experiência vivida por ele e sua equipe em três mandatos à frente do Estado do Espírito Santo.

Salientou que continua achando inadmissível que o Brasil, com todos os recursos e faculdades que tem, com a riqueza de suas terras e de seu solo, com a sua dimensão continental, com um clima tropical e de pequenas variações, sem guerras internas, sem conflitos ideológicos e de religião, ainda amargue os problemas que o assolam e siga patinando em questões fundamentais, e que outros países, mesmo sem o concurso desse elenco de facilidades monumentais, vieram a se constituir em grandes nações.

Hartung realçou o espírito do encontro, que é a reunião de jovens empresários e executivos, a cada dia mais consolidados na direção de importantes atividades que têm sob suas responsabilidades, e valorizou a disposição desses mesmos jovens de buscar a discussão de temas nacionais que inquietam o Brasil como um todo, especialmente porque passou da hora de o Estado brasileiro deixar de ser a única solução para tudo. Não somente porque os governos não queiram mais esse perfil, mas porque chegaram ao fim os recursos para tal; não há dinheiro para que a viúva siga sendo a mãe generosa de todos. União, Estados e municípios estão quebrados e sem de onde tirar um centavo a mais. Custear, no espaço da responsabilidade constitucional de cada um desses entes, a educação, a saúde, a segurança, o funcionamento dos Poderes Legislativo e Judiciário, ambos com suas extensões, a exemplo dos tribunais de Contas e do Ministério Público em suas especialidades, já representa um volume de obrigações nunca definitivas e, por isso, passíveis de periódicos ajustes.

Na semana passada, uma fala infeliz de um membro do Ministério Público de Minas Gerais ganhou dimensão nacional porque seu autor reclamava da impossibilidade de ele, ganhando R$ 24 mil por mês, sobreviver. E podemos esperar um arrocho ainda maior, de verdade. Penduricalhos atualmente ainda pagos além dos vencimentos de rotina, tais como as chamadas “verbas de gabinete”, auxílio-moradia, custeio de planos de saúde sem limites, remuneração de assessores, motoristas, carros de representação, incentivos para reciclagem e compra de livros, presença em seminários, congressos e escapes do gênero serão obrigatoriamente reduzidos ou mesmo excluídos.

Não podemos mais olhar esses absurdos e fingir que não existem, porque não temos mais de onde tirar. Vencimentos e aposentadorias milionárias, como as hoje pagas aos membros do Legislativo, do Judiciário e a alguns funcionários do Executivo, bem como as ainda pagas aos militares, têm que acabar.

Se não desamarrarmos essa corrente que o Estado brasileiro tem nos pés e não crescermos, vai faltar dinheiro para custear o mais elementar.

Esta é a oportunidade que o Brasil tem para se preparar para estar melhor daqui a dez, 20 anos: será a era da reconstrução do Estado brasileiro.

Fora disso, seremos um arremedo de nação, irrecuperável, pior ainda do que já estamos.

 

Fonte: Artigo publicado no jornal O Tempo, pág 2, em 24.setembro.2019.