Sentada na ponta da murada de uma pracinha, destas tantas que existem pelo país com academia a céu aberto, os óculos insistem em cair-lhe do nariz. Maria Cristina concentra-se na leitura. Não levanta a cabeça para buscar fôlego; muito menos lhe interessa a movimentação urbana. Algo nela chama a atenção. Um sofrimento escrachado, posto na pequena matula de mão, pousada ao chão. De perto, vê-se que é uma brasileira de viés raro. Combalida no trato com a vida, a exemplo da maioria abaixo da miserabilidade. Ela debruça-se sobre o livro "Crepúsculo", de autor estrangeiro. Mais um dos muitos que conduzem os jovens às sagas. Seu português é superior. De gente que sabe a importância das palavras bem postas. A descrição da obra, cujo personagem principal é um vampiro, se alonga, pois fascina-a. Tem parte do corpo tomado por doença. Maria Cristina, sobrevivente do Bolsa-Família, veio de São Paulo cercar-se do filho. Este mora em república de estudantes. Ali não há espaço para ela. Por aqui ficou... Como indigente, dorme na rua, às vezes come no restaurante popular. Recorre ao abrigo municipal vez ou outra. Tem umas poucas peças de roupas. Colhidas em lixeira ou doadas pela igreja. Ela ostenta 50 esgarçados anos. Cabelos presos, umas gotas de suor a lhe marejar na testa, unhas curtas, quase roídas, e elegância incomum. Sua esperança está depositada em janeiro próximo. Não em um emprego ou no barraco na favela do Papagaio, como seria cômodo imaginar. Ela é uma brasileira negra, paupérrima, mas diferenciada nas letras, no entendimento do abecedário. Tem curso superior e, surpresa, fez o Enem passado. Maria Cristina aguarda, ansiosa, o resultado do teste de âmbito nacional. Deseja cursar enfermagem, química ou um outro curso vocacionado para "mulheres". Ela precisa ser aprovada, explicou, para usufruir de alojamento e novos conhecimentos. Enfim, dar um novo rumo à sua vida, embora, hoje, orientada pelos livros e Deus.