O cenário catastrófico vivido hoje permite reflexões, em outro bom momento para se afastar do celular. Dúvidas e incertezas são inerentes à condição humana. O pensamento se esfumaça, a ação se prolonga. Fuja da rede um pouco, recorra aos livros. Eles são peremptórios, pródigos em elucubrações, múltiplos em informações, provocações, análises e críticas. Tudo rodopia na cabeça nesta hora em que a humanidade enfrenta outro cataclismo.
 
Essa movimentação mundial é freio de arrumação do sistema capitalista, assim me parece. A arrumação definitiva da carga se dá no rodar. Abóboras se acomodam no sacolejar. Homens e animais, no caminhar. O sistema chacoalhado por micro-organismo dele vai se servir na velha bandeja de prata para costumeiras e endiabradas maquinações.
 
O grande capital ocidental, de repente, se deparou com o gigante chinês que, a passos largos, em breve será a maior economia do planeta. Inexorável, o sistema vai se aproveitar da ocasião para embrulhar com vistoso papel celofane o velocípede movido a trabalho (força) e capital (lucro). 
 
O coronavírus funcionará como catalisador nesse processo, mas poderia, como já tentado, ser um invisível drone de precisão cirúrgica, manipulável a milhares de quilômetros. A pandemia incitou injunções imediatas na política sanitária e de profilaxia na área de saúde pública mundial. Não se brinca com a vida, embora isso não seja unanimidade.
 
Os comunistas conseguiram ser mais capitalistas que os próprios, em surpreendente estratégia mercadológica. A façanha mandarim causou inconformismo. Além de um mercado interno brutal, que será contemplado na medida certa, os chineses a seu modo investiram em indústria, tecnologia, engenharia, educação, saúde, etc, enquanto Estados Unidos e o Velho Mundo desfrutaram de auspiciosos ganhos da relação colônia\metrópole. O império dito civilizado, desenvolvido, se sustenta das riquezas naturais e da precariedade dos dominados. 
 
A velha China resolveu reocupar o espaço que foi dela antes de 1.500, quando das grandes descobertas. Catapultado com o advento da Revolução Industrial, o capitalismo fez da escravidão e da subjugação dos povos, das guerras mundiais e crises econômicas (Crack da Bolsa, Guerra Fria, Geopolítica do Petróleo, Socorro a Organismos Financeiros) a solução para nova ordem econômica. 
 
A riqueza não se disseminou, pelo contrário, concentrou-se. O confronto mundial passou a ser contraproducente e ineficiente. Sem energia elétrica, água potável, comunicação por satélites e alimentos inexistirão sobreviventes. A informática manipula setores da atividade produtiva, serviços e pesquisas. O aviões cruzam os céus, cargueiros singram os mares. Veículos e pedestres se orientam por GPS. Cartões de crédito reproduzem dinheiro em qualquer rincão.
 
A fumaça da lenha, a queima de combustível fóssil e a fissão nuclear deixaram de ser estratégicos, embora em uso. Sem alimentos e tecnologia, aquele abraço. Esse o dilema do sistema, desvairado atrás de um motivo para se readequar. Ele veio na forma de um vírus que, sem parcimônias, também tira vidas, a exemplo de doenças outras, a miséria e a fome. 
 
Doravante, a globalização distribuirá cautelas. Fronteiras comerciais blocadas atendem os interesses dos chineses. Grosso modo, eles conseguem por na soleira de sua porta qualquer bem de consumo não durável a preços mais baratos do que se fossem produzidos em quaisquer outros territórios. "A que custo?", gritarão logo os ultraliberais enraivecidos, como se o modelo ocidentalizado não gerasse abissal desigualdade social e fosse um paraíso em equidades, sob égide democrática.
 
Por ausência completa de política soberana e desenvolvimentista, o Brasil é exemplo. O receituário da cartilha ortodoxa exige redução do déficit com amortização da dívida em contraposição ao crescimento. Não sobram recursos para investimentos na fórmula draconiana. O país sobrevive da venda de matéria-prima e grãos sem agregação de valor. 
 
Entretanto, a exportação não sacramenta um estado-nação no cenário internacional. A cultura, sim. O bem difuso merecedor de respeitabilidade universal. Ninguém sabe sobre a produção de azeite na Grécia, mas todos veneram a filosofia de Platão, Sócrates e Aristóteles. Preservar a vida dos seres humanos, seja a que custo for, eis a questão da hora. O coro não se afina em uníssono. Vozes outras solfejam a atividade econômica, para evitar a ruína generalizada. No diapasão capitalista, a missa solene se arrasta até o sétimo dia.   
 
O grande capital enfrentará aguda contradição. Existe dinheiro virtual em demasia a circular no mundo. Os zeros à direita de um numeral ordinário confundem a todos nas casas dos trilhões, embora US$ 100 seja nota de altíssimo grado. As pessoas são bombardeadas com notícias sobre as bolsas de valores, como se todas fossem detentoras de papéis especulativos referentes às empresas e o mercado financeiro, quando esse universo diz respeito unicamente aos rentistas, parcela microscópica da sociedade brasileira, para ficar nos arredores. 
 
A volatilidade da especulação financeira arrombou a política monetária vigente. Suponha-se um apagão mundial no tocante à tecnologia. A quebradeira seria astronômica, com retorno ao escambo da Idade Média, na sequência. A crise do coronavírus provou que não adianta tirar o estado da tutela de promotor da assistência social e da redução da desigualdade. Para tanto, também foi criado, desde Montesquieu. A doença contagiosa deixará a lição: serviços públicos essenciais são dever do estado. Médicos e professores precisam ganhar bem, muitíssimo bem, porque responsáveis pela formação e saúde das gerações chegadas e que se vão. 
 
A pauperização crescente afasta a massa do consumo, óbvio. Hospitais e escolas privadas não conseguirão auferir maior lucro se alunos e pacientes não têm como pagar. A propriedade, pilar do sistema, pode ser de uns poucos. O pertencimento, porém, é de todos. Se por um lado, o coronavírus buliu a favor do espírito de solidariedade e coletividade, por outro reforçou o temível papel de estado-opressor. Tão almejado em banquetes neoliberais, o estado mínimo, provou-se neste trágico episódio, sacia apenas um segmento ínfimo e faminto de talheres a postos, guardanapos de tecido no pescoço.
 
As últimas palavras devem sempre ser dos cidadãos, não de governos. Não se barganha o estado democrático de direito, sob nenhuma hipótese, com este ente abstrato. Ele arreganha dentes afiados no exercício do poder, sem um pingo de poesia no trato com seus respectivos gentios. O psitacismo eloquente, linear, superficial, vazio de conteúdo, se mostra divisionista. A hora pede vesânias nas prateleiras da impessoalidade. A existência humana - única e coletiva - é de valor incomensurável, mesmo que, às vezes, penhorada pelos céus.