O que se pode pretender neste momento no Brasil, em que parcelas significativas da população vêm sendo grosseiramente motivadas, através de redes sociais, a engrossar movimentos cujo sentido final, não tenhamos dúvidas, busca a construção e a entrega total do poder a um projeto que, até o momento, conseguiu zero de transformação da miséria herdada dos governos anteriores? Trocaram-se ministros, fez-se a reforma da Previdência – até hoje apenas parcialmente regulamentada –, e o que mais?

Segundo o presidente Bolsonaro (em quem votei, por exclusão, confesso), desligou-se o aquecimento da piscina olímpica do Palácio da Alvorada e mudou-se o cardápio para arroz, feijão, carne moída, ovo frito com gema mole, quiabo, abobrinha e pimenta malagueta – tudo que eu também gosto. O desemprego, que massacrava 15 milhões de trabalhadores quando ele assumiu, continuou o mesmo.

Estávamos crescendo? Mentira. Aumentou-se o crédito mais barato para a produção e o campo? Não. A economia foi interiorizada, como forma de se evitar o caminho das favelas pelos que saem do interior do país? Também não. Os juros bancários baixaram? Sim, mas apenas para que os bancos pudessem remunerar as aplicações de cidadãos comuns, muitos desses que se tornaram rentistas como forma, através de suas poupanças, de complementarem suas aposentadorias deficientes. Deu-se mais esperança, reconheçamos, mas a esperança também findará quando começar a faltar, sem alternativas, a comida na panela das famílias, quando elas não tiverem mais como se abrigarem sob um teto onde se proteger.

Quem passa pelo centro das grandes cidades – e BH é um claríssimo exemplo disso – vê a miséria se avolumando em montanhas de seres humanos; há projeto algum para essa gente? O ministro da Fazenda talvez responda, da mesma forma como já o fez, dirigindo-se a um deputado federal do PT, num depoimento na Câmara: “Vocês querem que a gente conserte em meses o que vocês estragaram em 16 anos?”. Como cidadão, eu quero. Foi para isso que Bolsonaro se candidatou e venceu as eleições. Já está aí há um ano e quase cinco meses, e nada de concreto mudou para os mais pobres. Não foi o cidadão comum que estragou o país. Votamos mal, equivocadamente. Aconteceu de novo?

E o que faremos? Vamos tirar o deputado Rodrigo Maia da presidência da Câmara, o senador Davi Alcolumbre da presidência do Senado, os governadores e prefeitos que, do comando dos Estados e dos municípios, não apoiam Bolsonaro? Vamos também fechar a rede Globo, as rádios, os jornais e as revistas que com ele e com seus filhos não concordam e pra eles não batem palmas? Lacraremos o Judiciário, o Congresso e as universidades públicas, porque lá estão os comunistas que trouxeram o coronavírus da China?

Presidente: ponha na cadeia quem furtou, quem prevaricou, quem corrompeu; ninguém o está impedindo de nada nesse sentido. Nada! Pare de criar fatos e picuinhas. Fale menos ou fique calado e deixe de ser nervosinho. Usando a sua linguagem e a dos boçais – que, repito, incondicionalmente o apoiam e a seus filhos e amigos –, vá à PQP (não é assim que o senhor trata as pessoas com as quais não concorda?). Trabalhe, pare de conversar fiado, de dividir o país num momento tão grave como o que estamos vivendo. A fome, a miséria absoluta e o desemprego não vão diminuir com essa enganação do seu desgoverno.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, em 28.abril.2020