Livro lançado na semana passada em BH, fruto do trabalho dos jornalistas Murilo Rocha e Lucas Ragazzi, “Brumadinho: A Engenharia de um Crime” reacende as denúncias acumuladas contra a mineradora Vale, que desde 25 de janeiro pouco efetivamente fez além de tentar deslocar a atenção das autoridades e das famílias das vítimas para ações por meio das quais pensa em minimizar a realidade da perda de quase 300 vidas. Uma irresponsabilidade que provocou a destruição de casas, vegetações, criações de animais, enfim, a redução de várias histórias, hoje debaixo da lama que se achava mal guardada pela barragem que se rompeu em Brumadinho.

Negligência é a sentença do livro ao que se pode entender como desleixo da Vale, que a mineradora quer fazer esquecer no que chama periodicamente de “prestação de contas”. É a estratégia expressa numa sucessão de ações assistencialistas ou de doações e pequenas providências diante do gigantismo do acontecido; se algumas delas tivessem sido tomadas preventivamente e ao seu tempo, não teríamos que conviver hoje com as consequências de uma das maiores tragédias até agora consumadas contra a vida humana, contra a natureza e contra o meio ambiente.

A lama espalhada com o rompimento da barragem I da mina de Córrego do Feijão, que a cada dia mais se denuncia como evitável não fosse a irresponsabilidade de quem vive excessivamente focado no lucro de sua atividade, mudou a vida de quase três centenas de famílias, marcou definitivamente, de forma indelével, a memória de outras centenas de pessoas que diariamente atualizam suas memórias e as medidas de suas perdas. A Vale parece querer empanar essa realidade, construindo estações para tratamento da água que ela sujou, doando equipamentos e veículos para os serviços de saúde pública e de bombeiros e atendendo outras demandas, como se, pelo que se vê nas suas mensagens, estivesse praticando uma ação de generosidade à sociedade.

É uma obra que não pode deixar de ser lida. Trata-se do mais amplo e isento relato daquela tragédia, extraído de um vasto inquérito produzido pela Polícia Federal em Minas Gerais, com depoimentos, laudos técnicos, passagens bem documentadas que não deixam dúvida de que se sabia desde novembro de 2017, portanto mais de um ano e três meses antes do desastre, dos riscos do rompimento, que acabou ocorrendo em 25 de janeiro de 2019. E, pior, a Polícia Federal trabalha com indícios de que funcionários da Vale e de sua contratada Tüv Süd teriam usado e falsificado documentos para atestar a estabilidade da barragem.

Parabéns aos jornalistas autores do livro-reportagem, como eles próprios classificam esse marcante trabalho.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág. 2, em 29.10.2019.