Estamos vivendo nesta semana o fechamento de um ano em que quase tudo merece ser esquecido.

Desde março nossos dias foram de incertezas, de aumento do desemprego, da falta de dinheiro, dos confrontos os mais profundos e estúpidos, de mortes aos milhões em todo o mundo. De hospitais e seus CTIs lotados de doentes desesperançados e de médicos, enfermeiros e outros profissionais heroicos e, justificadamente, tementes a cada passo da própria contaminação. De governos aplicados na geração de soluções que pelo menos amenizassem os efeitos e repercussões da fatídica pandemia, muitos, graças a Deus, por meio de uma postura decente e republicana, mas outros que, num retrato emoldurado pelas práticas mais nojentas e repugnantes, se serviram criminosamente de recursos públicos para a corrupção, para o superfaturamento do preço de medicamentos e equipamentos hospitalares, sempre de costas para um quadro de enfermidades formado para dizimar parcelas significativas da população. Monstros, autores de delitos passíveis de pena de morte. Não há quem no mundo estivesse seguro de qualquer coisa, da própria vida em especial, e quem chegou até aqui agradeça a Deus. 

Este 2020, como inicialmente dito, acaba para ser esquecido, quase integralmente; o que não vai se apagar nos foi imposto à força. Mudaram-se as relações de trabalho e seus processos, com os recursos digitais. As escolas, impedidas de reunirem seus alunos da forma convencional, adotaram técnicas para fazerem chegar à sua clientela o ensino para depois formarem suas avaliações. O comércio, a indústria, a prestação de muitos serviços fecharam suas ofertas para logo depois migrarem para os formatos eletrônicos de venda, de produção e entrega. Em tudo, o que não acabou ou até não se sabe quando estará interrompido, o mundo mudou. 

Estamos atrás das vacinas, para nos imunizarmos e voltarmos à vida que todos tínhamos. Se em muitas faces a vida foi pior, em outras melhoramos: aprendemos a ser mais solidários, mais amigos, menos arrogantes, mais disponíveis e compreensivos, a valorizar as relações, a saúde, a vida em si. Se as vacinas nos chegarão, como esperamos, nas próximas semanas, que elas tragam também o restabelecimento da esperança, do reencontro com nossas melhores práticas, sentimentos e valores verdadeiros. 

É do que precisamos para compensarmos, ainda que minimamente, o muito que o mundo perdeu, com tanta dor, em vidas humanas. 

Até 2021, com saúde e paz para todos.

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo Jornal O Tempo, Pág. 2, em 29.Dezembro.2020.