O turismo afetado pelo cancelamento de passagens aéreas, de reservas de hotéis e restaurantes, imóveis com seus valores comprometidos, a fauna e a flora marinhas em sofrimento, o lazer das comunidades locais inviabilizado, a paralisação da atividade pesqueira são algumas consequências do desastre presente em 68 municípios de nove Estados do Nordeste. Ibama, Polícia Federal, órgãos ambientais de todas as esferas trabalham para elucidar a origem de tamanha irresponsabilidade do já admitido como ato criminoso que fez chegar a mais de 150 de nossas praias um óleo horrendo, em infindável e definitiva lesão a tudo que compõe a costa dos Estados do Nordeste brasileiro.

Primeiro a suspeita de que se tratasse de um ato de represália da Venezuela, dado que, quimicamente, o óleo derramado não se ajusta ao que é produzido no Brasil. Isso parece já ter sido afastado. Na semana que passou, identificaram barris que tinham uma etiqueta da multinacional anglo-holandesa Shell, usados para transportar um lubrificante utilizado em navios, o que certamente permitirá saber para quem foram vendidos tais barris, reutilizados para embalar rejeitos depositados no fundo de navios, como se deduz.

No Brasil as reações de repúdio estão manifestadas em todos os segmentos da sociedade, do presidente da República, do ministro do Meio Ambiente ao ambulante que faz das praias o espaço de sua atividade. Há um coro nacional de revolta contra essa sórdida irresponsabilidade. A imprensa internacional vem noticiando, e não poderia ser diferente, a gravidade desse atentado contra a relíquia ambiental que é a costa nordestina. Mas é pouco.

As queimadas nas florestas da Amazônia, também muito graves, mereceram o protesto de destacados chefes de Estado europeus, muitos com censuras ao que ousaram chamar de “descaso dos brasileiros” para com o “pulmão do mundo”, mas não se viram sequer manifestações de solidariedade ao povo nordestino por essa crueldade cometida não se sabe ainda por quem, mas, se Deus quiser, se vai descobrir. Onde estão as ONGs tão vigilantes da integridade ameaçada das nossas florestas, especialmente as da Amazônia? Onde estão aqueles que nos acusam de ser displicentes na guarda do nosso solo e das nossas matas, na nossa relação com os índios? Por que tamanha seletividade?

 Esse óleo jogado no mar por navios petroleiros, ao que se supõe, é um grave atentado, que afeta frontalmente a diversidade da nossa flora e fauna marinhas. Tartarugas, peixes e outras espécies estão morrendo aos milhares, recifes de corais e a paisagem danificados, e não se ouve uma voz do mundo que venha ao nosso socorro. Será que o Nordeste saiu do mapa das preocupações do universo dos ambientalistas?

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo,  pág 2, em 15.10.2019