Além do debate sobre a origem das vacinas travado pelos governos federal e de São Paulo para a compra e a consequente oferta do insumo para a imunização dos brasileiros ameaçados pela Covid-19 – o que, neste momento, somos quase todos –, numa flagrante e estúpida valorização de opções que são de fundo muito mais político-eleitoral do que científico, pouco se fala de como o caixa do Tesouro vai conseguir bancar as demandas sociais e econômicas que teremos em 2021. Estados e municípios viveram neste ano de pandemia quase exclusivamente através dos recursos vindos de Brasília, o que, obviamente, não acontecerá nos próximos anos.

Não haverá como suportar a quase descontrolada injeção de verbas no custeio da saúde e no pagamento do socorro emergencial. Lamentável que, em milhares de circunstâncias, muitos tenham se aproveitado da tragédia que representou a disseminação do vírus e fraudado o acesso e o uso desses recursos públicos, seja na às vezes danosa compra de equipamentos e insumos que deveriam ser utilizados pela saúde pública, seja na produção de falsos necessitados. Uma vergonha que entrará para a história da indignidade humana e que marcará mal uma geração tanto quanto o flagelo da pandemia.

Estados e municípios estarão quebrados, o que não é segredo. O caixa federal só terá dinheiro se contratar vultosos empréstimos, de certeira repercussão na majoração dos juros e na volta da inflação com seus danos históricos; o mais relevante deles será o desestímulo ao investimento privado na produção, para acabar de nos matar. Donos do controle de sociedades, quase todas carentes de investimentos muitas vezes essenciais à sobrevivência dessas, os governos continuam dormindo, resistentes em não levar para a mesa a discussão de projetos de privatização desses elefantes. Preferem mantê-las ineficientes, paquidérmicas, arrastando-se e diluindo-se, do que colocá-las à venda.

Os investimentos de que dependem para permanecer de pé dezenas de estatais são recursos que já faltam e faltarão muito mais na manutenção de obrigações intransferíveis, muitas delas por imposição legal a outros responsáveis. Minas é um Estado onde essa inércia é flagrante e injustificável. Foram bandeiras de campanha tanto de Bolsonaro como de Zema e de diversos outros candidatos e, hoje, engrossam o rol de promessas não cumpridas. Pior: foram feitas quando não estávamos tão quebrados e necessitados e sem perspectivas como estamos hoje.

Contentamo-nos com o pouco. Festejamos o avanço do agronegócio como se ele pudesse se responsabilizar, sozinho, pela conta do desenvolvimento. Jogamos nele dinheiro a juros baixos (baixos quando comparados com o que cobram normalmente os nossos bancos), mas não investimos em pesquisa, em substituição de importações, em tecnologia, na interiorização do desenvolvimento industrial. Batemos palma para a exportação das nossas commodities, minérios especialmente, mas não cobramos a formação de uma cadeia produtiva, geradora de preços, empregos e que nos prive de importar nossas mesmas commodities em itens que somos capazes de produzir. O que estamos esperando? Quebrarmos de vez?

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo Jornal O Tempo, Pág. 2, em 22.Dezembro.2020.