Nesta semana de  lamentável  avanço da  pandemia e de graves consequências das fortes chuvas em Minas, em especial na região metropolitana de BH, com hospitais sobrecarregados de milhares de pacientes sofrendo com o medo, com a falta de medicamentos, de  oxigênio, de médicos, enfim, com o pavor da morte pela Covid-19, com famílias desabrigadas, desemprego em massa, com a difícil  execução dos Orçamentos públicos pela escassez das finanças, um deputado federal de Minas, cujo nome não vamos citar para não parecer um ataque pessoal ou partidário, travou uma briga via Twitter com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, porque ambos reivindicam a paternidade do pequi para suas regiões. 

Quer o deputado que a cidade de Montes Claros seja, por um projeto de sua autoria, declarada “Capital Nacional do Pequi”, como um incentivo ao turismo, à geração de empregos, à economia etc. 

Certamente, pela visão do deputado, turistas movimentarão as estradas e os aeroportos para comer pequi no calor de MOC. 

Inconformado, o governador Ronaldo Caiado veio no mesmo nível, convocando o “líder da bancada goiana na Câmara para uma reação à altura da ameaça, porque o pequi está no DNA dos goianos”. 

Uma reação de falta do que fazer, da miséria intelectual de todos que sustentam tal ação como um trabalho político, do qual se ocupam um parlamentar e um governador de Estado.

Aliás, se é para ser bem lembrada neste momento, Montes Claros é uma das três cidades brasileiras que melhor enfrentaram as misérias legadas pela pandemia, ao lado de Palmas, no Tocantins e de Betim, em Minas.  

A nossa Assembleia Legislativa também não fica fora. No último dia 6, “em plenário”, foi recebido projeto que institui o “Dia do Designer de Interiores e Ambientes”. 

Mencionada iniciativa, sem a qual pararia o Estado, seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça e depois será também detidamente analisada pela Comissão de Trabalho, da Previdência e da Assistência Social. Pressa, senhores, para que possamos comemorar esse avanço ainda em 2021.   

Ontem, como eficiente colaboração do Legislativo municipal à indústria da mediocridade, um vereador da Câmara de BH, dizendo-se aplicado nessa luta desde 11 de abril de 2017 (pasmem), reacendeu o debate pela criação, às expensas públicas, do “pipódromo”, uma área a se instalar nas regionais da capital para abrigar aqueles que se apresentam como integrantes do “público amante das pipas” (papagaio, como se dizia na minha infância), conforme expresso na justificativa do projeto pautado para votação.4 

Que pautas! Façam-nos o favor. 

Mandatos legislativos são instrumentos muito caros, especialmente para terem como titulares os que não enxergam o grave momento que estamos vivendo. 

A pandemia mata neste país mais de mil pessoas por dia, engrossando um contingente de vítimas em ascensão e que já passa de 253 mil brasileiros.

As finanças públicas, em todos os níveis da Federação, não serão suficientes para manter brasileiros de pé, trabalhando, comendo e morando.

Onde faltam recursos para o atendimento mínimo das necessidades humanas, de saúde, segurança, educação e moradia digna, não há espaço para mais nada, especialmente para a mediocridade, para a insensibilidade, para tanta alienação.

 

 

Artigo publicado pelo Jornal O Tempo, Pág.2, em 09.Fevereiro.2021