Há mais de ano estamos vendo ser objeto da discussão de grupos nacionais, em parte da imprensa, em partidos políticos e nas redes sociais, a questão da propriedade e da posse de armas, e o argumento é sempre o mesmo: defender a propriedade, rural ou urbana, da ameaça dos bandidos que nelas querem penetrar, saquear, matar seus donos. A legislação brasileira há décadas reconhece o direito do cidadão de bem de produzir a sua própria defesa, diante do risco de ofensa à propriedade ou à vida humana, sua ou de outrem a que esteja assistindo ser maltratada. 

Não poderia ser diferente; qualquer um de nós, em qualquer circunstância desse tipo, naturalmente se defende, até com um pedaço de pedra. É um instinto natural. Quem tem uma propriedade na zona rural ou mesmo na cidade, sabendo da possibilidade de em algum momento ser ofendido, que tenha suas defesas, compradas nas casas do ramo de armas, que deverão ser registradas, guardadas e eventualmente, usadas onde e como permite a lei. 

Esses mesmos grupos gritam também que se trata de defender o país da ameaça da esquerda, que no Brasil, há também décadas, está prejudicada pela falta de grana, de inspiração e mais recentemente de locais para tomar cerveja, conversar abobrinhas e comer mandioca frita e torresmo. 

Ontem, em Fortaleza, numa luta organizada por boxeadores sem dúvida criminosos, dois monstros se encontraram num ringue, e um deles foi, diante daquele que lá estava como juiz da disputa e de uma plateia de centenas de animais que gritavam, esmurrado até a morte. Ninguém interveio, ninguém mandou parar, o “arbitro” deixou correr. Em poucos minutos, uma pessoa de uns 40 anos estava no chão e já sem vida. A matéria da TV não esclareceu se se tratava de um pai de família, de um esportista, de um filho, de um trabalhador desavisado. Mas foi dali retirado morto. 

Nesse fim de semana, em fotos que a imprensa divulgou sem deixar dúvidas, centenas de jovens se aglomeravam na região do que chamam “6 Pistas”, na divisa da cidade de Nova Lima com Belo Horizonte. Onde está a violência? No desrespeito à saúde pública, aos inesgotáveis investimentos feitos pelo orçamento público para tentar salvar vidas que as famílias estão perdendo aos montes, em não usarem máscaras e se juntarem em locais de onde certamente sairão centenas de infectados. Não ter zelo pela vida dos outros também é uma forma de violência; e pior, porque é sorrateiro o mal que causa.

Nesse mesmo fim de semana, vídeos foram postados nas redes sociais onde apareciam jovens de não mais de 18 anos, da cidade de Betim, segundo dizem moradores de um condomínio de luxo, organizadores de um movimento intitulado “Homofóbicos de Betim”; uns 30 jovens, todos com uma cara idiota de maus, tomando cerveja – como se estivessem cuidando da honra nacional. Todos têm o direito de gostar, evitar, desgostar de héteros e, também, dos homossexuais. É a indiscutível orientação de cada um (no meu caso, sou hétero desde pequenininho e estou muito satisfeito). Mas organizar movimentos nesse sentido, pregar a violência contra quem tem outra orientação, ameaçar “dar porrada”... isso, certamente, no ambiente de casa, diante dos pais desses jovens. Esses pais não têm ideia do que estão permitindo, o que se está pregando? Se algo ocorrer, vão assistir seus filhos mofarem na[uma cadeia?

Apenas como observação: no meio dos quase 30 jovens, todos com cara de corajosos e machos, não havia uma mulher. De que esses meninos gostam então? Nessa idade, que eu me lembro, o bom era namorar, beijar na boca, ter tesão. Eu, hein! 

 

 

 

Fonte: Artigo veiculado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 27.abril.2021