A Cemig, em recente alteração que promoveu no seu comando, além da substituição do então presidente Cledorvino Belini, ocorrida anteriormente, anunciou a troca de boa parte da sua diretoria. A antiga formação mineira da diretoria anterior cedeu espaço para uma “paulistização” com seus atuais membros, a começar pelo novo presidente, Reynaldo Passanezzi Filho. Ele foi presidente da transmissora de energia Companhia de Transmissão de Energia Paulista (CTEEP), do grupo colombiano Isa, que, por sua vez, tem participação na Transmissora Aliança de Energia Elétrica S/A (Taesa), também do grupo Cemig, por muitos reconhecida pela sua performance como a cereja do bolo. Partindo do pressuposto de que a concessionária mineira já sinalizou que pretende vender sua participação na Taesa, pode-se esperar que a CTEEP poderá largar em muito boa posição nesse grande prêmio.

Em meio a essa troca de comando na Cemig, a Light, distribuidora de energia fluminense que também possui como uma das acionistas a Cemig, ocasionou, no início do mês, um grande distúrbio no mercado de energia do país ao encaminhar notificações invocando cláusula de força maior em virtude da pandemia de Covid-19 para diversas de suas geradoras, inclusive para as do grupo da mãe Cemig.

Fato é que, desde a oferta pública de ações pela Light, quando a participação da Cemig no capital social  passou de 49,99%  para 22,58%, a Cemig aparentemente deixou de lado o acompanhamento da gestão daquela distribuidora, como se deduz do desinteresse na indicação de membros para o Conselho de Administração da Light e da ausência de participação relevante na definição dos rumos de suas empresas controladas (por exemplo, processo de alienação da participação da Light na Renova por R$ 1,00; sim, um real).

Ainda assim, a participação acionária da Cemig na Light ainda é bastante relevante, e todos os impactos suportados pela distribuidora fluminense certamente vão repercutir no resultado da estatal mineira, na mesma proporção de sua participação e descaso pelo seu controle. Os problemas da Light, que já não eram poucos, foram, e muito, acentuados após o adensamento da crise decorrente da Covid-19, sobretudo agora que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reconheceu a validade e eficácia da Lei Estadual 8.769/2020, que proíbe corte de serviços essenciais, como fornecimento de água, gás e energia elétrica durante a pandemia do coronavírus. Isso certamente elevará o nível de inadimplência para patamares jamais vistos na história daquela concessionária.

É de se perguntar: a nova diretoria da Cemig nada fará para retomar as rédeas do comando da Light? É certo que a compra do controle da Light pela Cemig – uma operação realizada com o Grupo Andrade Gutierrez por meio de um investimento inexplicável quando era governador de Minas o atual deputado Aécio Neves – nunca deixou, desde sempre, de ser um péssimo negócio. Mas também não é para jogar fora uma empresa que, se um dia bem administrada, poderá valer alguma coisa numa eventual e futura alienação.

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pág 2, em 14.Abril.2020