Na minha juventude, consequência de um acidente de carro, passei mais de ano alternando-me entre leitos de hospitais, a cama de minha casa, em cadeiras de rodas, muletas etc. Foi uma experiência, obviamente, marcante na minha vida, como seria na de qualquer ser humano. Tive como única compensação o ato de receber o carinho dos amigos, da minha família, dos médicos, enfermeiras e funcionários dos hospitais por onde andei, entre os quais destaco o Felício Rocho.

Um desses médicos era um ortopedista de pouca conversa, sério, objetivo, frontal, o que depois soube serem as características que elevavam o respeito que trazia gravado no seu currículo, que o tempo me ensinou a admirar. Eu, um jovem de 18, 19 anos, e ele, já muito mais velho, mas comigo ele conversava, ouvia, dava alguma confiança, o que no Felício já viam como um privilégio: dr. Márcio Ibrahim de Carvalho, em quem reconheço a competência e a dedicação como médico como fundamentais para que eu pudesse voltar a andar.

Um dia, nas suas visitas diárias pelos pacientes, sempre acompanhado de uma “renca” de residentes, eu, morrendo de dor, disse a ele que desejava que todo ortopedista tivesse fraturas antes de se formar para saber como seus doentes sofriam. Ele me respondeu com um franzido da testa e riu, como quem não tinha tempo a perder com minha história, e seguiu seu périplo. Na jornada do dia seguinte ele me perguntou se ainda achava que ortopedista deveria quebrar a perna alguma vez e se pediatra deveria ser criança. Vi como uma forma de ele ser sensível a mim, seu paciente.

Estamos, minha mulher e eu, saindo da Covid, com a qual nos contaminamos não sabemos como: sempre fomos muito cuidadosos, de extremada observância com higiene pessoal, uso de máscaras, álcool em tudo, nenhuma presença em qualquer tipo de aglomeração, observância rigorosa do distanciamento social, tudo, sem concessões ou descuidos.

A doença nos trouxe os incômodos que quase todos vivenciam, nada se revelando como um sacrifício intolerável. Desde que positiva a contaminação, guardados os cuidados para que outras pessoas da nossa volta não sofressem qualquer agravo a sua saúde e integridade; trancados e sozinhos em casa, algumas situações vimos saltar, entre elas talvez a mais negativa, que é a absoluta  desinformação sobre a doença, em todos os seus planos, relativa a alguns médicos, mas quase total em relação à população em geral.

Nesse tempo de necessário e responsável recolhimento, perdemos muitos amigos, parentes, e o que mais nos marcou foi muitas vezes que essa doença poderia estar sendo muito menos agressiva à sociedade, matando menos, muito mais barata para o Estado e para a sociedade se estivesse sendo tratada com mais testes, mais assistência de profissionais, mais comida e, ouso dizer como leigo, sem tanta internação.

Perdemos amigos que não receberam informações adequadas ou as receberam de forma precária, sobre seu real estado de saúde e o que fazer durante seu tratamento. Que morreram sem serem testados, ou o foram quando a doença já estava avançada. Recebemos tratamento precoce, o que pode ter nos ajudado, e muito. Avançamos. Como sempre nos disse um amigo, um leigo engenheiro civil, que sofreu com a Covid, mas que se recuperou: “Desta doença você tem que estar sempre à frente”. Assim também fizemos, e até agora deu certo. Mas, reconhecida e agradecidamente, também tivemos excelentes médicos.

 

 

 

Fonte: Artigo publicado pelo jornal O Tempo, pag. 2, em 04.maio.2021